a isabela bela
com a vovó à mesa
brincava de língua portuguesa
como passatempo
para passar o tempo

“tirou o p da prima
olha  a rima

o x do externo
ficou eterno

a xícara sem xi
mostrou a cara

como horrorosa
se tem uma rosa?

um hífem entrão
misturou comidas
e deu fruta-pão

escrever tem das suas
se fim da linha se separa
chá-
cara
é uma ou  são duas?

e é mentira a vovô dizer
que maturidade
não tem idade

e ela me contou
que a esperança pôs
um belo ovo
dentro do Ano-Novo

mas o mais bonito
para os olhos meus
foi quando eu vi o eu
dentro de Deus”

18.1.17

fiz um poeminha
e rimei dor e flor
mostrei para vovó
que disse “hum!
Isabela bela
isso é lugar-comum”

aí fiz outro
que escrevi
“pus a vovó na panela
e joguei pela janela”

tenho certeza
que se ela descobre
lá vem “bela bela
isso é rima pobre
eu falo isso
pra você fazer direito”

adoro a vovó
mas ela não tem jeito
aposentar aposentou
mas dentro dela
a professora ficou
20.2.17

a isabela bela
disse que a vovó
contou a ela
e que não é balela:

“que um poeta português
era um grande fingidor
que a dor que sentia
conseguia fingir que era
uma outra dor
e porisso
ficou sendo chamado
de O Outrador
aí ele se chamava Fernando
e ficava só outrando
outrou como Álvaro
como Alberto e Bernardo
acho que uns cinco ou seis
pois a vovó inda falou
de um tal Ricardo Reis

a vovó me ensina
muita coisa boa
mas neste mundo
tem cada pessoa
Aff!”
19.2.17

a palavra perguntou
para o poema
o que ele queria
o poema respondeu
que queria poesia
a palavra respondeu
ao poema que poesia
só para o nascer do dia
o poema lamentou:
o que fazer então
com essa madrugada
chuvosa triste e fria
a palavra perguntou
se o poema não sabia
que há tempo para tudo
quando se trata de poesia
o tempo de plantar cuidar
trabalhar o que a alma fia
depois sim ver de perto
nascer aquilo que sacia
aí o poema entendeu
que é preciso ser paciente
pra brotar esta semente
que se chama poesia

15.2.17

CELULAR

os olhares mudaram
de direção
– agora só nas mãos

no ônibus no namoro
no passo
(laço na atenção)

na vila
olhar na vala
olhar funil

na fila
olhar sem fala

na vida
olhar que perde
da vida
o que arde,
o febril

o celular mudou de rumo de prosa
o celular mudou de poesia

nenhum olho no olho
nenhum cisco no olho

mudou o motivo
da cabeça baixa
mudou o bom dia
o fone de ouvido
mudou o furtivo

o mundo esqueceu
do mundo
no mundo que já dialogou
com a cortina suspiro
que o gestual uniforme
fechou

o homem que não mais pisca
– agora cisca
 
 
 
27.7.14