JORNAL DA MANHÃ

O dia de hoje me estraçalha.
Mais uma vez a dor do que os olhos vêem
traz um céu de palha
na calada tentativa de me anuviar
entre feridas e nós de batalha,
o que significa apenas adormentar,
quando a roda da canção do despertar
em cálidas nuances, migalha.

O dia de hoje é mais que o pânico.
Ao deflagar ordens
da ditadura universal insana
se julga ainda orgânico,
demonstrando véus que da mente flana
por toda a espécie, de todo fato
que se posta satânico,
mas que em máscara de anjo,
recolhe os cacos adiante
da nossa estupefação,
de nosso ralo choro diante
do sorriso torpe do que chama emoção,
no desdém do noticiar tirânico.

O dia de hoje a gente jã não ama.
O carrossel da reiteração de rombos,
doados em toda a história dos dias,
nos dá a liberdade de coexistir
com o que azafama.

Afinal, somos nós que, aos tombos,
escolhemos sair da cama.

COMPANHEIRA

De onde vens, estrela intrusiva?
Quando te geraram, onda viajante?
Quais ordens tens, além
de me viver entre sorrisos e relâmpagos?
És um círculo ou formas com meu desespero,
fractais? Impertinência doada pelos deuses
ou por ninguém?
Nasceste ou inteirei-me em ti
num lapso do tempo em que a tudo requeria?
Dizes ser para o sempre, sempre. Amém.

Transtornas, mas não é o presente.
Nada, apareces como aspecto,
fora dos sentidos, ausente.
No ar, goteira esconsa,
espelhas como dor e aos olhos insurges
como fantasma, labirinto penitentes.

Inexistes, pedaços de lembranças.
Como simulacros, entrementes,
cinges a circunvoar, formas tranças.
Mescla pungente,
ebulitiva, agarra redores.
Farpas de passado
querendo se congraçar em recente.

EXERCÍCIO MATINAL

“Aurora, entretanto eu te diviso”

DRUMMOND

Nas pontas dos dedos no novo dia,
um escuro de medos. Reflete
certa energia (que deve vir)
do recordar de um parágrafo
ou em devir motor de um culto ágrafo.
Um mal sabedor que rompe, cria cores
ou notas silenciosas
que prorrompe dores ocultas e pastosas.

Mas antes que qualquer lembrança me divida
acordarei do que foi me dito em algum passado
e verterei aos olhos, numa simples sacudida
raios de sol eufônicos neste instante alforriado.

NA RUA

A outra calçada me desperta.
Pára a vida sentida. Estanca
o augúrio, muda o momento.
A estranha rua entranha ação
ao pensamento. Enquanto levo-me,
estabeleço um debate entre deuses de aço
em feroz altivez. Motos ciclopes
serpenteiam entre si uma busca
contérmina; doam-me este minuto
hiato, em que, ao correr,
corto o tempo inexistente,
sôfrego de passado,
antibiográfico, esquecível.

Chego do outro lado.
Volto-me intacto ao dia
e sigo a linha solitária
da sangria, escolhendo opostos,
favorecendo à sina um pacto
incerto e lânguido que me escorre.

Dissolvo meu corpo nas ruas da cidade
antes que outra travessia me devore.

SAUDAÇÃO

Quando deambulo pelas ruas
quero dizer aos cantos,
ao livre arbítrio da fealdade,
esqueleto das febres,
aos homens que sobrevêm:

– Largue esta Cruz! Vá viver!

Mas eu digo: – Bom dia!
trovando o ditongo
entre dentes de barricada.

Não há comunhão no momento
que é de acuidade
do que há sob o sol.

E meus instintos todos,
mundo afora, a colher
palavras para um papel
de gesto lívido,
sobreposto de mudez.

O INCOMPLETO

O amor sem a sabedoria
não nos sacia
e nos liga
ao estado de prostração.

Faz com que o nosso pensamento siga
uma só direção,
encantando plenamente,
mas nos aterrando a um só chão.

Posto não definir o que seja,
passa a ser tudo sendo o nada
quando muito se almeja
fende como espada
e ao sonho apedreja
em não se perpetuar.

Amor tem de nos cobrir,
não nos cercar.