18

Em 2018, completei 50 anos escrevendo versos. A princípio, pensei em selecionar trabalhos de todos estes anos e reuni-los, como uma comemoração ou algo parecido. Ao mesmo tempo, eu escrevia novos poemas a cada dia, o que me fez mudar de ideia. Assim, escolhi alguns deles e os denominei DIÁRIOS DO 18 neste pequeno livro. De qualquer forma, intimamente, me senti em festa.


ANO NOVO

Para o ano novo quero ver

se sossego;

quero apenas versos mancos.

(que sempre nego)

Quero tudo que é o nada

que não me apego.

Quero o pessoal fazendo boas letras

e desinflando o ego

e  já aviso, se vier com lero-lero,

descarrego.

Quero o que me faz feliz,

não o que arrenego

e o desejo de felicidade para todos

em mais um ano que chega

em voo cego.

(Acho que é muito querer,

muito martelo pra pouco prego)

26.12.18


NOMINALISMO

A derradeira palavra

sobre este século vinte e um

(desconfiado de ter vindo à furo)

ainda não existe;

algo como sob escombros,

fora do gozo,

que lateja mofos.

Um anjo de Milton decaído no mar da perplexidade.

Lágrimas secas

como  a palavra

que ainda não existe  nem na dúvida de que existirá.

13.12.18

O MURO DE PEDRAS

Fixo no muro de pedras

outro olhar,

o da fantasia.

Vejo rostos disformes/

mitológicos

que deveriam assustar,

posto estarem na posição e essência

de espelho de labirintos

prontos a vasculhar o que penso (e vejo)

enquanto doido

na banda

em que transito a maior parte do tempo.

A razão – censora da mente,

previne serem as pedras colocadas por gente.

Supõe um pedreiro que não tinha tempo

para carregar um escultor em si:

sobrepôs pedras como seu ofício

sem a doença de pensar em legado

(jamais sonharia em desvendar almas).

Mas o muro ali está

pequenas manchas

(heras?)

me repartem

entre nossas existências.

A janela que sequer se surpreende

como cúmplice de um vagar de espírito.

Os rostos ali pontificam espectros:

máscaras que um dia terão vida

aprumam versos de como resistir

contra a irrealidade de pântanos

que tende a deixar marcas.

21.11.18