O FLERTE

(Para o ser criança)

Sol, trânsito e esperanças
coletivas e saltimbancas.
No ônibus, Deus se infiltra.

Camuflado com touca azul,
seus olhos que indagam
procuram os meus. Faço-lhe
caretas. Comungamos um flerte.
Sorri e dentro de mim, nuvens
e paz. E isso me basta: é Deus!

Ninguém mais operaria o milagre
da transformação de instantes.

Mas logo se vai. Embora no colo
de um amor, visualizo-o cocheiro
da quadriga que bendiz o arqueiro.
E suas setas serão sorrisos a doar.

Tarde apocalíptica e um sorriso
banguela cicatriza o mundo todo.
É Deus! Só pode ser!

11.10.19

Vácuo do isolamento.

Dói-te o viver,
a hora,
o instante?
O cavalo de Troia que abrigas já além da memória?

Dói-te?
a falta de pouso,
de pausa, de pássaros cantantes?
A noite que ceifa teu sono profundo?

Dói-te o não saber
que um mundo outro após a cancela
tem mais sabedoria
que teus eletrônicos da superfície?

Dói-te a multidão e gritos da tua mente
como míssil que atropela tuas carnes e ossos?
Dói-te tudo isso? A ausência
e a presença do nada digladiando
no teu quintal? Os venenos
em mãos distintas? Dói-te,
de verdade? Teu vácuo de isolamento
que já começas a vivenciar?
Dói-te e não queres a dor?

Então é hora de beber o silêncio
que guardas no coração
sem dares contas
que ali repousa à tua espera.

Vá até ele,
pelo caminho interior,
desviando dos desejos menores,
do proto egoísmo que trazes como uma paixão.

Silencia tua vida,
mesmo que por minutos.
Serás conectado a um pomar
com macieiras de frutos e sombras
guardadas para ti
desde quando não havia rastros no Mundo.

1.10.19