18.10.21

Qual o tamanho do mundo? Do nosso mundo. A cada livro que leio, cada viagem que faço sinto que meu mundo ficou maior. Em vez de alvoroçado, cai-me o cinzento, porque  cada lado de meu mundo que cresce, fico mais só. A solidão é a linha paralela que corre junto e se intumesce como um cão fiel. Tornam-se insuportáveis a cada excursão. Fui cercado, amado e beijado quando andava dentro de um mundo menor, paradoxalmente parecido com uma roupa folgada, de colarinho de palhaço. Meu mundo cresceu e encostou à minha pele. Constato o desejo voraz de que meu mundo se adelgace e se torne o menor dele.

 

17.10.21 – A CASA

O canto da corda do violino

dava vida ao insólito rádio

mas demovia a alegria da sala

que abocanhava a solidão.

 

A janela de madeira pedia

que a deixassem beijar o sol

e espalhar o som; quem sabe

a claridade não trouxesse olhos?

 

Um absorto enigma no olhar

da foto da mulher de coque e xale

no canto do papel de parede

choroso de todas as tardes.

 

Uma porta que há muito não range

nem permite passos adentro.

Uma porta fechada à rua.

Uma porta que cerra a vida.

 

Uma casa de toda ausência.

Da completa falta de ar.

Uma casa de dor sem grito.

Muda, de pecados opacos.

 

Uma casa em mim, fixa

pelo tempo que me carrega

pelas vias de lembranças

superpostas em imagens

 

que não se desintegram

nunca, nem nas esquinas

nem nos bares. Deverei ser

esta casa para sempre.

.

4.6.18

1

bocas do tempos

porta do dia anterior

arca de muitas horas

portfólio de ontem

na praia do amanhã virá uma garrafa cheia

enquanto espero, rio

2

rumo ao até não sei quando

a busca daquilo nem sei

até que as mãos transpiraram

num poema regressei

3

circulam políticos entre o povo descalço

usam pernas de pau de dois metros

altura ideal para sorrisos verdes

sem nenhum toque

quiça vômitos

25.11.14

PEQUENA GUERRA CONTRA O ENFADO

 

o mesmo passo

que já um dia surpreendeu

uso como volta –

 

vagar de propósitos

abandono de sequer um crisântemo que destaque

pitada mínima de azul inusitado

buzina com notas de danúbio também azul

risos que desancam rotinas

e puem a imaginação

 

voltar não é caminho

é regular só na gramática

sempre tem a cara de queda

de ralos que transbordam

outro cinema que fecha

o eclipse nunca visto

a rosa plástica envelhecida

 

voltar tem o sabor da penumbra

há (será?) um antídoto à espera

um estanque neste não ir

freio neste vazio de alma:

 

abandono dos óculos

dois ovos cozidos

o espraiar na cadeira da varanda

o cabo dado ao dia

o sopro forte nestas migalhas da noite

e a espera a morte de quem somente come claras

e sem sal

8.12.14

RUAS DE PIEDADE

 

desço a ladeira da manhã

ouço cantos de vassouras

mãos e fileiras anunciam:

o trabalho pode ser feliz

 

um gari se aproxima – conta

dois anos já no serviço – provoca

a cidade sem nós seria outra

concordo num tchau que ressoa

 

um sorriso de vida se abre

a vassoura como lança quixote

ri de meu verso e certeza:

de que varreu minhas ilusões

as que acumula já na manhã

as que ruminarei até a tarde

que há de chegar de forma cega

 

então, evoé

amigo fugaz

O VENTO

Se uivas na noite ninfa,

esfrias na noite infinda,

traze-me o frescor do rosto

como fogo do amor.

 

Se cuidas da noite tenra,

se colhes na noite flores,

traze-me o pulsar do sangue

como gozo do amor.

 

Se esquivas na noite calma,

se mata na noite amores,

traze-me o brotar do linho

como teia de amor.

 

Se acordas na noite eterna,   

beijas na noite fria,

traze-me o olhar do dia

como seiva de amor.

 

21.1.91

 

.

RIOS

 

Vou para a distância
de um ano do Tejo,
mais de dois do Potomac,
e uns (mais ou menos)
cincoenta do Turvo.

O Tejo, rio e versos,
sangrou meu olhar
de tantas esferas da íris.

O da ponte da foto de jornal,
da televisão, transformando
crianças em passos de altivez,
na subida de Arlington,
aliciou minha memória.

E o Turvo, tantas vezes
cruzado, chorado, ceifador
de vidas virgen, tatuou
em mim a incredulidade
do fim. Em cada um,
um pedaço foi extraído
do meu já parco tempo.

Hoje, levado sem águas,
a cada fala, a cada vômito,
a cada singrar de cremação,
me sinto à sós e seco.

26.11.19

LUTA DO SER

A contenda é contra nossa mente.

A grande luta das forças insanas.
Como cessar a maré intermitente?
Guardar o Minuano em choupanas?

É preciso acordar e nos vencer.
Ser o mais altivo conquistador,
que dentro de nós vive sem saber
que o aguardamos para o labor.

Com a alma comandante revelada
partir para batalhas sem repouso.
A iniciar no encontro da alvorada
até quando damos ao sonho pouso.

Florir a vida com estóicas palavras
na colheita perene do pensamento.
Seguir a trilha para o alto às claras
com a leveza do desprendimento.

Descobrir no Servir a força contida.
Na imensidão do amor permanecer.
Respirar o ar fresco da nova vida
que encontraremos neste vir a ser.

Sentir nas manhãs do Sol o derrame
sobre nosso rosto e fazer a conexão
com a Vida Maior no sagrado ditame
que nos conduz à eterna comunhão.

Enfim, marcar a nossa ínfima passagem
por este planeta que foi nossa morada
neste tempo de busca e aprendizagem
da Unidade por Deus predeterminada.

8.11.19