De negros olhos

salta um olhar lascivo

sobre o batom da noite.

Um rosto inefável assalta

a minha frágil memória

e fere como um açoite.

É a distância que separa

da pele, da voz, do corpo

e de beijos nunca tidos.

E fica, solta, uma imagem

na lembrança que cala

mas inflama meus sentidos.

12.2.22

Eu amo te  amar da forma que te amo.

Eu amo amar a tua luz que inunda todo o meu ser.

Eu amo amar o teu amor que não guarda tamanho.

Eu amo te amar sem quaisquer paredes.

Eu amo te amar quando conversamos

e me respondes ao teu modo.

Eu amo te amar quando me ensinas a abandonar-me.

Eu amo te amar quando eu te chamo a qualquer hora

e tua presença, como raio, desce ao meu coração.

Eu amo te amar quando me preservas esta nova vida.

Eu amo te amar quando me intuis do que seja a outra vida,

maior, como ida ao teu encontro, enquanto eternidade.

Eu amo amar-te.

12.2.22

2.2.22

No meio-fio, um pequeno e lindo  passarinho marrom,

não levanta voo  pela minha chegada.

Seu nome é natureza, advinho.

 

Fico imóvel para que não se quebre nosso laço de confiança.

Seus olhinhos fixos  em mim  projetam-me algo

maior, que por defeito de ser humano,

dou o nome de alegria comungada.

 

Neste  momento único  e diáfano, percebo

que todo o meu corpo se harmoniza.

Sigo meu caminho

e meu amigo de olhar crístico 

volta a procurar seu alimento.

.

18.10.21

Qual o tamanho do mundo? Do nosso mundo. A cada livro que leio, cada viagem que faço sinto que meu mundo ficou maior. Em vez de alvoroçado, cai-me o cinzento, porque  cada lado de meu mundo que cresce, fico mais só. A solidão é a linha paralela que corre junto e se intumesce como um cão fiel. Tornam-se insuportáveis a cada excursão. Fui cercado, amado e beijado quando andava dentro de um mundo menor, paradoxalmente parecido com uma roupa folgada, de colarinho de palhaço. Meu mundo cresceu e encostou à minha pele. Constato o desejo voraz de que meu mundo se adelgace e se torne o menor dele.

 

17.10.21 – A CASA

O canto da corda do violino

dava vida ao insólito rádio

mas demovia a alegria da sala

que abocanhava a solidão.

 

A janela de madeira pedia

que a deixassem beijar o sol

e espalhar o som; quem sabe

a claridade não trouxesse olhos?

 

Um absorto enigma no olhar

da foto da mulher de coque e xale

no canto do papel de parede

choroso de todas as tardes.

 

Uma porta que há muito não range

nem permite passos adentro.

Uma porta fechada à rua.

Uma porta que cerra a vida.

 

Uma casa de toda ausência.

Da completa falta de ar.

Uma casa de dor sem grito.

Muda, de pecados opacos.

 

Uma casa em mim, fixa

pelo tempo que me carrega

pelas vias de lembranças

superpostas em imagens

 

que não se desintegram

nunca, nem nas esquinas

nem nos bares. Deverei ser

esta casa para sempre.

.

4.6.18

1

bocas do tempos

porta do dia anterior

arca de muitas horas

portfólio de ontem

na praia do amanhã virá uma garrafa cheia

enquanto espero, rio

2

rumo ao até não sei quando

a busca daquilo nem sei

até que as mãos transpiraram

num poema regressei

3

circulam políticos entre o povo descalço

usam pernas de pau de dois metros

altura ideal para sorrisos verdes

sem nenhum toque

quiça vômitos

25.11.14

PEQUENA GUERRA CONTRA O ENFADO

 

o mesmo passo

que já um dia surpreendeu

uso como volta –

 

vagar de propósitos

abandono de sequer um crisântemo que destaque

pitada mínima de azul inusitado

buzina com notas de danúbio também azul

risos que desancam rotinas

e puem a imaginação

 

voltar não é caminho

é regular só na gramática

sempre tem a cara de queda

de ralos que transbordam

outro cinema que fecha

o eclipse nunca visto

a rosa plástica envelhecida

 

voltar tem o sabor da penumbra

há (será?) um antídoto à espera

um estanque neste não ir

freio neste vazio de alma:

 

abandono dos óculos

dois ovos cozidos

o espraiar na cadeira da varanda

o cabo dado ao dia

o sopro forte nestas migalhas da noite

e a espera a morte de quem somente come claras

e sem sal