DA ANGÚSTIA

Envolte-te neste agora.

Sei que queres com teu manto negro.

Sabes o momento que frágeis em mim

as palavras, o rompante de bardo,

as setas certeiras que hoje não fulminam.

Nem quando doces versos

nem com a aridez que temes.

Despeja teu fel, que sei imenso,

que conheço cheiros e braços

e o piso de mangue

que instalas e sonhou instalar

vida afora, rechaçado por rimas

e outras catapultas que enfrentaste.

Vem, deixo-te sorrir hoje por letargia,

restos de suspiros, avidez de resguardo.

Mas somente hoje.

Amanhã não encontrarás

esta incerteza em minh’alma.

22.8.16

FILMES TCHECOS

I

A vingança da viúva negra

Foi logo após o amor

Não foi o machado

Não foi o fuzil

Foi logo após o amor

Tudo de passou em branco e preto

Com agradável cheiro de eucalipto

II

O adolescente criou

Sentiu nos olhos a incapacidade de grande guerra

Logo amou

Fardado de leviandade

Coçou o ouvido esquerdo

E morreu

A fumaça da locomotiva

Contou esta fábula

Em dezesseis milímetros

III

Afirmou a covardia

Temendo não mais lavar seus pés

Na água quente (morna)

Ficou a vender

Botões e fitas de rendas

Sangradas e inexistentes

Deixou-se lamber pelo cão pedrês

Sonhou um homem iluminado

No mundo fascita

Sonho cadáver no seio da manhã

Das marchas e diáspora

Era (foi) um ladrão de verdades

14.12.74

A RECORRENTE

A minha solidão nasceu

de uma esquina não dobrada,

num tempo descompassado.

que não guarda certezas

lembranças  ou imagens.

Pode ser até um todo do tempo

que tive, um sem cessar carrossel

sem música.

Fiquei só por estar ao longe

do que não me faria sentir estranho.

(na verdade

nem sei se minha solidão nasceu

pode ser uma natimorta

e a esquina nunca existiu

e eu apenas um alguém

com a cabeça sob um eterno sereno)

12.7.18

POTE DE OURO

O poeta sabe onde pisa

se pisa no seu vácuo.

Um estado assim

de considerar como seu

pote de ouro,

sua cabeceira da cama.

Sabe andar nas estrelas

e não cultiva flores no chão.

O poeta finca

mistérios não seus,

mas nunca nina

suas palavras consumadas.

O poeta é todo busca

mas não sem fim

posto a poesia ser finda

em si mesma, companheira

eterna de instantes.

Com um palito de fósforo:

único, solitário e essencial.

19.11.11

REBELDIA

A minh’alma,

dona de seu nariz,

já me deixou claro:

“não podes comigo”

Mas prometeu

momentos em

que eu possa

orgulhar-me dela.


Enquanto espero,

sinto-me como

os dois Taviani(s)

tentanto domar

Gian Maria Volonté.

(Engraçado é que eu pensei neste poema

como um libelo contra a delinquência

metafísica.Acabou-se em viagem.

Entre continentes e metáforas inoportunas;

no final, tem até um sorriso meio alquímico).


21.7.13

A LUTA IMAGINADA

Uma guarânia pinça

jeitos de lutas de ontem.

Feitos deixados, morgados

em sabor de abandono.

Sono e cartapácio imóvel

como estante do tempo,

como gestante de entes,

como negligentes crivos.

Motivos infremes de apesares

mascarados de vontade,

descerrados de fazeduras.

A luta que não houve

passou, mas rastros

incidiram sobre atritos.

Detritos de covardia no dia

em que a noite escorreu.

Volto a um grito latino

deixado para trás.


Volto sem campo

nem brigas de ferozes,
como pensamento.

Ribalta para a poesia.


11.10.14