4.6.18

1

bocas do tempos

porta do dia anterior

arca de muitas horas

portfólio de ontem

na praia do amanhã virá uma garrafa cheia

enquanto espero, rio

2

rumo ao até não sei quando

a busca daquilo nem sei

até que as mãos transpiraram

num poema regressei

3

circulam políticos entre o povo descalço

usam pernas de pau de dois metros

altura ideal para sorrisos verdes

sem nenhum toque

quiça vômitos

25.11.14

PEQUENA GUERRA CONTRA O ENFADO

 

o mesmo passo

que já um dia surpreendeu

uso como volta –

 

vagar de propósitos

abandono de sequer um crisântemo que destaque

pitada mínima de azul inusitado

buzina com notas de danúbio também azul

risos que desancam rotinas

e puem a imaginação

 

voltar não é caminho

é regular só na gramática

sempre tem a cara de queda

de ralos que transbordam

outro cinema que fecha

o eclipse nunca visto

a rosa plástica envelhecida

 

voltar tem o sabor da penumbra

há (será?) um antídoto à espera

um estanque neste não ir

freio neste vazio de alma:

 

abandono dos óculos

dois ovos cozidos

o espraiar na cadeira da varanda

o cabo dado ao dia

o sopro forte nestas migalhas da noite

e a espera a morte de quem somente come claras

e sem sal

8.12.14

RUAS DE PIEDADE

 

desço a ladeira da manhã

ouço cantos de vassouras

mãos e fileiras anunciam:

o trabalho pode ser feliz

 

um gari se aproxima – conta

dois anos já no serviço – provoca

a cidade sem nós seria outra

concordo num tchau que ressoa

 

um sorriso de vida se abre

a vassoura como lança quixote

ri de meu verso e certeza:

de que varreu minhas ilusões

as que acumula já na manhã

as que ruminarei até a tarde

que há de chegar de forma cega

 

então, evoé

amigo fugaz

O VENTO

Se uivas na noite ninfa,

esfrias na noite infinda,

traze-me o frescor do rosto

como fogo do amor.

 

Se cuidas da noite tenra,

se colhes na noite flores,

traze-me o pulsar do sangue

como gozo do amor.

 

Se esquivas na noite calma,

se mata na noite amores,

traze-me o brotar do linho

como teia de amor.

 

Se acordas na noite eterna,   

beijas na noite fria,

traze-me o olhar do dia

como seiva de amor.

 

21.1.91

 

.

RIOS

 

Vou para a distância
de um ano do Tejo,
mais de dois do Potomac,
e uns (mais ou menos)
cincoenta do Turvo.

O Tejo, rio e versos,
sangrou meu olhar
de tantas esferas da íris.

O da ponte da foto de jornal,
da televisão, transformando
crianças em passos de altivez,
na subida de Arlington,
aliciou minha memória.

E o Turvo, tantas vezes
cruzado, chorado, ceifador
de vidas virgen, tatuou
em mim a incredulidade
do fim. Em cada um,
um pedaço foi extraído
do meu já parco tempo.

Hoje, levado sem águas,
a cada fala, a cada vômito,
a cada singrar de cremação,
me sinto à sós e seco.

26.11.19

LUTA DO SER

A contenda é contra nossa mente.

A grande luta das forças insanas.
Como cessar a maré intermitente?
Guardar o Minuano em choupanas?

É preciso acordar e nos vencer.
Ser o mais altivo conquistador,
que dentro de nós vive sem saber
que o aguardamos para o labor.

Com a alma comandante revelada
partir para batalhas sem repouso.
A iniciar no encontro da alvorada
até quando damos ao sonho pouso.

Florir a vida com estóicas palavras
na colheita perene do pensamento.
Seguir a trilha para o alto às claras
com a leveza do desprendimento.

Descobrir no Servir a força contida.
Na imensidão do amor permanecer.
Respirar o ar fresco da nova vida
que encontraremos neste vir a ser.

Sentir nas manhãs do Sol o derrame
sobre nosso rosto e fazer a conexão
com a Vida Maior no sagrado ditame
que nos conduz à eterna comunhão.

Enfim, marcar a nossa ínfima passagem
por este planeta que foi nossa morada
neste tempo de busca e aprendizagem
da Unidade por Deus predeterminada.

8.11.19