Hoje vou falar de “A última estrela tropical”, do poeta e amigo João Augusto. Mais que falar, saudar. Como não tenho estofo literário para análises mais específicas, coloco-me como leitor privilegiado, que sempre tem o mesmo sentido em tudo que saboreia em palavras: a busca da Beleza que o fermente para essa tão curta vida (que pena!), e neste livro sobram atributos neste sentido, com tantas imagens envoltas do grande lirismo incrustado na alma deste poeta. Então, resolvi procurar transmitir, na criação de também imagens minhas (já antecipo que mais pobrinhas, como diria o Rosa), toda a aventura e ventura que senti ao terminar a leitura. Então vamos lá: como num filme, parecia-me ver o João passeando em campos de flores, de toda natureza, as silvestres e as nobres, colhê-las com suas mãos e ajeitando-as em ramalhetes-poemas. Nas mãos, o poema se parteja, depois de percorrido seu caminho de alma, cabeça e coração. Não à toa que pelo “fingo” que quer dizer modelar a argila, nasceu “fingidor”, por vezes tão mal explicado, no leito do rio mais bonito da aldeia de Fernando Pessoa. Ou as mãos preciosas do Carlos, a coabitar com o sentimento do mundo.

Pois bem, assim (para mim) o João Augusto o fez. E de ramalhete em ramalhete formou um outro grande jardim, chamado de A última estrela tropical.

Sempre que falo de livros de poesia , encerro com a escolha de um poema do livro. Mas, dado a minha ideia de sua concepção, colherei também flores já devidamente emolduradas com a boa poesia.

“Não sei soletrar a palavra mundo / sem abrir nela uma rosa, uma infância.”

“Minta comigo / sobre a distância da aurora,”

“Gosto das imensidões que brotam das pessoas”

“Ruas são sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!

sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!

 

Praça e Sol. Manhã de percorrer as floriculturas, entre sorrisos e afetos que só a intimidade externa junto da claridade que reluz pode nos doar. As pessoas quando entre flores são tão mais vivas quanto elas. Momento que lembramos que que o movimento da Natureza opera infinitamente. Adentro ao palácio de aromas divinas e compro um ramalhete imaginando o término da ação, na entrega e o olhar precioso de que quem vai receber. Saio como um assobio de melodia barroca e encontro um homem todo fora do quadro que me toca. Cabelos grisalhos, roupas desajustadas; imagino-o a me pedir algum trocado, e cheio de magia da manhã, já me preparo. Mas não, ele olha para minhas mãos, para as flores que carrego. Trocamos um olhar e com um sentimento de culpa de pré julgar, digo:

– Lindas, não? E ele, com olhar e movimentos sutis, de afago sem toque, com um luzir na face, me responde como alma amiga,

– Como elas são generosas!

Obviamente mudo o destino do presente. Trocamos lágrimas entre quatro mãos trêmulas e entrego a ele as flores e meu coração. Sigo meu caminho, comovido pela lição de Beleza na qual me embeveci. A praça e tudo nela permanecerão em mim, crescerão em mim, doce lembrança de um momento vestido com a Ode à alegria, da Nona.

Conforme a realidade das ruas trazem o retorno inexcedível, com as flores agora já aladas, penso em doar alguns livros que tenho, Platão, Aristóteles e Kant, entre eles.

Já não me servem.

11.11.19

Hoje, gostaria de registrar o término da leitura do livro UM CLITÓRIS ENCOSTADO NA ETERNIDADE, de Matheus Arcaro. Uma poesia forte, possuidora de recados, por vezes peremptórios, “o amor… não suporta os dois pontos do seu lado direito”, com reflexões bem ao sabor da nudez da alma da metalinguagem, “Pra fazer poesia / é preciso mastigar a palavra”, tudo em escaninhos interiores ou capítulos, a cantar tudo que é preciso, como diria o nosso querido Walter Franco, de partida meteórica enquanto lia este livro, “de dentro pra fora, de fora pra dentro”. Assim o fez o meu caro Arcaro, como gosto de me dirigir a ele. Evoé, poeta.

Abaixo, um poema, no qual me vi refletido:

SUSSURRO

O segredo autorrevelado
deixou-o despido.
Tentou roçar-se no espelho,
tato míope na imagem mirrada:
as mãos não alcançaram
as intimidades do instante.

Por fim, só um imperativo: leiam este livro!

10.11.19

 

Para a Ely, com afeto.

Por estes últimos dias, tenho estudado com afinco, a obra de Apolônio de Tiana, mago e filósofo do Século I, cuja essência de seus ensinamentos está calcada no grande bem que a Natureza nos propicia, o Silêncio (Apolônio ficou 5 anos sem falar, obedecendo a regra rígida do Pitagorismo, do qual foi adepto.) Em meio a este momentos, recebo um mimo da querida amiga Ely Vieitez Lisboa: o livro de contos da escritora Eunice Mendes, FACA NA LÍNGUA. Penso em lê-lo logo após o término dos estudos a que me referi acima. (Ainda, ao mesmo tempo, tenho um Malraux para terminar) Mas, como se trata de uma indicação da Ely, resolvo ler apenas o primeiro conto, pois a comichão por boa letras é viciante. E tomo um susto, o conto se chama Silêncio. Um sorriso acompanha de chofre um vixe! E deparo-me com linhas assim: “Silêncio traz verdades incômodas e nos impede de nos escondermos à luz da ignorância. É o carrasco da vida mais pacífica e nos empurra para a infelicidade do autoconhecimento.”Epa! Imediatamente penso em sicronicidade (Hello, Jung!), mas também na energia do próprio taumaturgo da Capadócia, que tenho namorado ultimamente. Sei lá, mas acredito em bons sinais. Enfim, agradeço a Ely pelo precioso presente e parabenizo o talento de Eunice Mendes (sabe das coisas). Adorei tudo isso. E finalizo estes dizeres cantarolando um verso do Gil: “O mistério sempre há de pintar por aí.”

25.9.19

LEMBRANÇAS

O primeiro encontro com emoção que tive com o futebol, foi no último jogo da Seleção Brasileira em 1958, contra a Suécia, anfitriã do torneio. Confesso que não estava entendendo muito aquele deserto das ruas, rádios ligados em alto volume, olhos lacrimejantes e outras coisas mais. Só cheguei ao prumo da seriedade daquele jogo, quando entrei na cozinha de minha casa e vi minha mãe ajoelhada no chão, pedindo a Santo Antonio de Pádua “Ajuda o Brasil, meu Santo Antonio!” (esse clamor viria a calhar nos dias de hoje). A cena que vi, trouxe-me à realidade. A coisa toda era séria mesma. Futebol mexia com todos, e comigo deveria ser assim também, mesmo com 7 anos de idade acabados de completar. Bem, acho que a fé de minha mãe em Santo Antonio valeu. E Garrincha e Pelé deram uma pequena ajuda. Brasil Campeão do Mundo! Ah! um detalhe: era dia de São Pedro.

13.6.19

CRÔNICA DO DIA

Ouvi muitos xingamentos na minha vida. Meus ouvidos escoraram muitos. É bom que se diga que a maioria não foram dirigidos a mim, e sim os ouvi em alguns conflitos presenciados e, na maioria deles, ditos ao léu como forma de desabafo ante situações de futebol e política, na sua maioria.

O mais corriqueiro, claro, é o de atacar a honra da mãe de outrem, com variadas estruturas, como o tradicional e mero filho da puta, ou o passar o filho para o feminino e xingar tanto homem com mulher. Também já ouvi ser usado como filho das ou filho de uma. E até um eufemismo simpático “quem não fizer tal coisa, a mãe não é santa.” Varia ao gosto das bocas, que adoram poder xingar.

Jesus, doce criatura, quando os fariseus passavam da medida (e sempre o faziam), sonorizava um “raça de víboras!”.

Mas eu gostaria de mencionar uns mais inusitados: um amigo de infância que ao sinal de qualquer raiva, lascava um “vai bundar com o Frederico!” Ora, o verbo bundar, um neologismo de primeiríssima classe na criação dos mesmos, pode ser fácil o entendimento. Mas e  o tal Frederico? Algum sentido fálico para um simpático nome. (Tive um grande amigo assim chamado, era juiz de futebol; partiu antes do apito final, saudade.) Durante anos fiquei matutando (coisa de avô) o Frederico inserido neste sem dúvida palavrão, dada a forma vociferada como era exprimido.  Acabei por abandonar a dúvida  e a pesquisa. O tempo passou, não mais ouvi ninguém o utilizar. Sumiu da história.

Agora, tinha um tal de Joecy, que fugiu de sua casa para acompanhar um circo, que além de bom de briga, era um ás do xingamento. O que mais usava era menos raivoso que tantos outros que ouvi, porém gritado de forma sempre enigmática. Em qualquer contenda, lá vinha o Joecy, de alcunha Mister, com o seu formidável “seu cara de onguborutu, feição de bode mocho!” Segundo apurei tinha aprendido com seu pai, um nordestino com muito orgulho do nome que carregava, o seu Virgulino.

25.3.19

CRÔNICA DO DIA

A chuva daquela tarde caíra mensal. Foi que entendi do que a moça do tempo disse na TV. Uma grande jarra despejando água num copo. Não me furtei à imagem. O pensamento se evade com a precisão de um raio sobre um mapa mundi colocado na mesa de nossos olhos fechados. O mestre Lupicínio matou de vez quaisquer tentativas de elaborar versos neste sentido com o genial “o pensamento parece uma coisa à-toa mas como é que a gente voa…” E nessa profusão que a mente provoca, olhando as águas de março (o Tom, nem diga) ancoro em recordações da primeira enchente que pude presenciar de perto. Assisti todas etapas, do temporal ao caos que as águas provocaram no jardim da cidade, situado na praça central, com a queda de árvores, destruição dos bancos de madeiras,e a fonte luminosa, destruída.

Ainda carrego os rostos dos engraxates, desolados por perderem seu espaço de trabalho. Bem no meio da praça, atravessando a rua, um cinema com todos seus cartazes estragados, e a Fulaninha, loja de bilhetes de loteria com seus vidros quebrados. O vento fora de uma força jamais presenciada. Um velho cão de todos me olhava triste. Ele sentira a natureza mais que todos nós, por ser todo percepção, sem que tivesse necessidade de procurar razão para tudo aquilo. Uma noite digna de São Bartolomeu (exagero do cronista). E a manhã já se remoçara límpida, com seus raios de Sol procurando formar um arco-íris. O rio já se acalmara, mas ainda mantinha perigosa velocidade em seu correr. O mundo ia se ajustando, precisando de uma limpeza. Foi o que pensei, depois que entre muitas falas ouvidas, a do Ziqui sobrepôs: – “A água é castiguenta, ela quando cai, é pra limpar as coisas ruins que nóis fazemos. E se cai forte e ventando assim, é porque a coisa tava feia, acumulada nos pecados! É muito chifrudo nessa cidade! Brinca com Deus, brinca!” E ninguém apontou ser uma frase machista. Apenas riram. Nas chuvas daquele tempo era assim mesmo.

24.3.19

CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19