19.9.16

Caminhei muito para aqui chegar. Neste silêncio desentulhado; nesta eterna espera pela noite. Nestes vale e sombra dos dias que por aqui deixaram suas marcas. Aqui, com a calma dos versos  antes aflitos, aporto agora como um velho casco; caminhei  muito dentro de mim: todo um tempo de inequívoca pulsação. E constato que para toda essa travessia, minhas pernas sequer deram um passo.

19.9.16

19.9.21

SOU, LOGO SOU

Sou o que leio, sou o que me dizem, sou a escala de sexta menor de Barry Harris, sou o que mora livre num campo cercado, sou a sensação de não estar onde realmente sou, sou  a ira nascida da fala do Ministro de Estado,  sou da falsa segurança a real, sou seis ou sete pitangas colhidas contra o tédio, sou o príncipe e o sapo no espelho, sou o tênis encharcado de neve no Central Park, sou por demais o não-desejo realizado, sou quem se feriu com  o olhar do guarda da esquina, sou a criança que brinca na areia restrita ao fut-vôlei, sou o quê seria dos que salvam a humanidade no poema do Borges, sou a desilusão do comentário escrito do amigo, sou o laico sorrir da pertinência, sou o que faço e a espera do prêmio desbotado, sou o cinza da paleta em busca do azul, sou a  que não morre: a dúvida metafísica, sou o que como, sou sempre o que nunca sabe o que é o quê, sou por ser, sou e suo.

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Hoje vou falar de “A última estrela tropical”, do poeta e amigo João Augusto. Mais que falar, saudar. Como não tenho estofo literário para análises mais específicas, coloco-me como leitor privilegiado, que sempre tem o mesmo sentido em tudo que saboreia em palavras: a busca da Beleza que o fermente para essa tão curta vida (que pena!), e neste livro sobram atributos neste sentido, com tantas imagens envoltas do grande lirismo incrustado na alma deste poeta. Então, resolvi procurar transmitir, na criação de também imagens minhas (já antecipo que mais pobrinhas, como diria o Rosa), toda a aventura e ventura que senti ao terminar a leitura. Então vamos lá: como num filme, parecia-me ver o João passeando em campos de flores, de toda natureza, as silvestres e as nobres, colhê-las com suas mãos e ajeitando-as em ramalhetes-poemas. Nas mãos, o poema se parteja, depois de percorrido seu caminho de alma, cabeça e coração. Não à toa que pelo “fingo” que quer dizer modelar a argila, nasceu “fingidor”, por vezes tão mal explicado, no leito do rio mais bonito da aldeia de Fernando Pessoa. Ou as mãos preciosas do Carlos, a coabitar com o sentimento do mundo.

Pois bem, assim (para mim) o João Augusto o fez. E de ramalhete em ramalhete formou um outro grande jardim, chamado de A última estrela tropical.

Sempre que falo de livros de poesia , encerro com a escolha de um poema do livro. Mas, dado a minha ideia de sua concepção, colherei também flores já devidamente emolduradas com a boa poesia.

“Não sei soletrar a palavra mundo / sem abrir nela uma rosa, uma infância.”

“Minta comigo / sobre a distância da aurora,”

“Gosto das imensidões que brotam das pessoas”

“Ruas são sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!

sementeiras de gente, / como sonhos são canteiros de silêncios.”

e o antológico

“São mil palavras dentro da palavra adeus”

Ai está, como disse no início, minha saudação, modesta mas revestida de festa.

E o melhor deixei para agora: na capa, após o nome, tem a generosidade a nos indicar que se trata de um primeiro volume, intitulado Diálogos e sonhos, o que prenuncia outros que virão.

Bravo!

 

Praça e Sol. Manhã de percorrer as floriculturas, entre sorrisos e afetos que só a intimidade externa junto da claridade que reluz pode nos doar. As pessoas quando entre flores são tão mais vivas quanto elas. Momento que lembramos que que o movimento da Natureza opera infinitamente. Adentro ao palácio de aromas divinas e compro um ramalhete imaginando o término da ação, na entrega e o olhar precioso de que quem vai receber. Saio como um assobio de melodia barroca e encontro um homem todo fora do quadro que me toca. Cabelos grisalhos, roupas desajustadas; imagino-o a me pedir algum trocado, e cheio de magia da manhã, já me preparo. Mas não, ele olha para minhas mãos, para as flores que carrego. Trocamos um olhar e com um sentimento de culpa de pré julgar, digo:

– Lindas, não? E ele, com olhar e movimentos sutis, de afago sem toque, com um luzir na face, me responde como alma amiga,

– Como elas são generosas!

Obviamente mudo o destino do presente. Trocamos lágrimas entre quatro mãos trêmulas e entrego a ele as flores e meu coração. Sigo meu caminho, comovido pela lição de Beleza na qual me embeveci. A praça e tudo nela permanecerão em mim, crescerão em mim, doce lembrança de um momento vestido com a Ode à alegria, da Nona.

Conforme a realidade das ruas trazem o retorno inexcedível, com as flores agora já aladas, penso em doar alguns livros que tenho, Platão, Aristóteles e Kant, entre eles.

Já não me servem.

11.11.19

Hoje, gostaria de registrar o término da leitura do livro UM CLITÓRIS ENCOSTADO NA ETERNIDADE, de Matheus Arcaro. Uma poesia forte, possuidora de recados, por vezes peremptórios, “o amor… não suporta os dois pontos do seu lado direito”, com reflexões bem ao sabor da nudez da alma da metalinguagem, “Pra fazer poesia / é preciso mastigar a palavra”, tudo em escaninhos interiores ou capítulos, a cantar tudo que é preciso, como diria o nosso querido Walter Franco, de partida meteórica enquanto lia este livro, “de dentro pra fora, de fora pra dentro”. Assim o fez o meu caro Arcaro, como gosto de me dirigir a ele. Evoé, poeta.

Abaixo, um poema, no qual me vi refletido:

SUSSURRO

O segredo autorrevelado
deixou-o despido.
Tentou roçar-se no espelho,
tato míope na imagem mirrada:
as mãos não alcançaram
as intimidades do instante.

Por fim, só um imperativo: leiam este livro!

10.11.19

 

Para a Ely, com afeto.

Por estes últimos dias, tenho estudado com afinco, a obra de Apolônio de Tiana, mago e filósofo do Século I, cuja essência de seus ensinamentos está calcada no grande bem que a Natureza nos propicia, o Silêncio (Apolônio ficou 5 anos sem falar, obedecendo a regra rígida do Pitagorismo, do qual foi adepto.) Em meio a este momentos, recebo um mimo da querida amiga Ely Vieitez Lisboa: o livro de contos da escritora Eunice Mendes, FACA NA LÍNGUA. Penso em lê-lo logo após o término dos estudos a que me referi acima. (Ainda, ao mesmo tempo, tenho um Malraux para terminar) Mas, como se trata de uma indicação da Ely, resolvo ler apenas o primeiro conto, pois a comichão por boa letras é viciante. E tomo um susto, o conto se chama Silêncio. Um sorriso acompanha de chofre um vixe! E deparo-me com linhas assim: “Silêncio traz verdades incômodas e nos impede de nos escondermos à luz da ignorância. É o carrasco da vida mais pacífica e nos empurra para a infelicidade do autoconhecimento.”Epa! Imediatamente penso em sicronicidade (Hello, Jung!), mas também na energia do próprio taumaturgo da Capadócia, que tenho namorado ultimamente. Sei lá, mas acredito em bons sinais. Enfim, agradeço a Ely pelo precioso presente e parabenizo o talento de Eunice Mendes (sabe das coisas). Adorei tudo isso. E finalizo estes dizeres cantarolando um verso do Gil: “O mistério sempre há de pintar por aí.”

25.9.19

DA ANGÚSTIA

Envolte-te neste agora. Sei que queres com teu manto negro. Sabes o momento que frágeis em mim as palavras, o rompante de bardo, as setas certeiras que hoje não fulminam. Nem quando doces versos nem com a aridez que temes. Despeja teu fel, que sei imenso, que conheço cheiros e braços e o piso de mangue que instalas e sonhou instalar vida afora, rechaçado por rimas e outras catapultas que enfrentaste. Vem, deixo-te sorrir hoje por letargia, restos de suspiros, avidez de resguardo. Mas somente hoje. Amanhã não encontrarás esta incerteza em minh’alma.

 

22.8.16

LEMBRANÇAS

O primeiro encontro com emoção que tive com o futebol, foi no último jogo da Seleção Brasileira em 1958, contra a Suécia, anfitriã do torneio. Confesso que não estava entendendo muito aquele deserto das ruas, rádios ligados em alto volume, olhos lacrimejantes e outras coisas mais. Só cheguei ao prumo da seriedade daquele jogo, quando entrei na cozinha de minha casa e vi minha mãe ajoelhada no chão, pedindo a Santo Antonio de Pádua “Ajuda o Brasil, meu Santo Antonio!” (esse clamor viria a calhar nos dias de hoje). A cena que vi, trouxe-me à realidade. A coisa toda era séria mesma. Futebol mexia com todos, e comigo deveria ser assim também, mesmo com 7 anos de idade acabados de completar. Bem, acho que a fé de minha mãe em Santo Antonio valeu. E Garrincha e Pelé deram uma pequena ajuda. Brasil Campeão do Mundo! Ah! um detalhe: era dia de São Pedro.

13.6.19

18.6.14

Já te disse: te dou minha palavra. Não a do acordo, da afirmação de minha identidade. Mas a  minha liberta da razão, terna como um abraço, pena pela fragilidade, apurada em rios internos a desaguar no vento. A palavra que não tem outra face senão a do vício lírico, que se adultera em escudos aos frontispícios dos erros que rodeiam todos no mundo, principalmente os que insistem em respirar os becos de viver e a escuridão dos homens.