CRÔNICA DO DIA

Meço a distância entre minha casa e a padaria, percurso que faço todos os dias caminhando (salvo se manhã de chuva forte; as fracas combato com um colorido guarda-chuva), sem utilizar nenhum padrão de distância que conhecemos e nem o entediante contar passos, coisa de velho que não adquiri. A minha trena são os bons-dias. Hoje, por exemplo, foram onze. É claro que pensei, no retorno, em time de futebol. Mas foram onze saudações dignas de um congresso da ONU. Várias idades, cor, religião e se quisermos acrescer novos tipos, vamos incluir as feições faciais, das quais tentamos subtrair o humor e quiçá pensamentos. E chego à uma conclusão, lógica e portanto simplória, que esses cumprimentos, antes de tudo, são uma festa matinal. E com direito a ser altamente terapêutica, pois ao exalarmos um bom-dia sorridente, efetuamos a verdadeira inteiração com conhecidos e estranhos, e como somos egocêntricos desde os primeiros segundos do dia, já demonstramos o quanto educados e por que não, altivos e superiores. Assim mostramos uma de nossas máscaras diárias sem o menor perigo de rejeição. Senhores, senhoras, jovens de mochila, comerciários esperando o busão (assumo o apelido para dar mais cor a esta minha pequena crônica), enfim um painel humano considerável em suas diferenças de vida. (Buscar pãozinho fresco para a esposa virou tratado de sociologia). Enfim, o bom-dia é melhor que qualquer coisa nas manhãs, melhor que caminhada, Tai Chi Chuan ou academia ao ar livre. É uma maravilha. Apenas às vezes, um pequeno acidente pode acontecer e o panorama mudar climaticamente. É quando encaramos muito um sorriso e esquecemos de cuidar do chão. Há gente que fez o mesmo trajeto antes , acompanhado de seu cãozinho, que desdenhou da calçada e deixou sua pequena lembrança para que eu a pisasse. Nesta hora, de chuva ou um límpido sol, raios caem sobre minha cabeça. E o cumprimento passa a ser daí em diante de uma forma levemente interrogativa: bom dia?

18.3.19

23.8.16

OS SAPOS


Vi quando o sapo saiu da floresta em frente. Vi o outro saindo também. Deduzi o casal. Atravessaram o asfalto molhado e pararam defronte a garagem do vizinho. Pensei tragédia. A fêmea poderia estar prenha. Com uma vassoura gentil, encaminhei os sapos de volta à floresta. Pensei que ele pudessem me convidar para as águas que se ouvia. Mas chegou o carro do vizinho:

– “Varrendo a rua, poeta?”

Pensei nas bocas dos dois sapos. Tinham sorrisos amarelos.

12.2.16

O BERIMBAU


Duas estantes quais colunas jônicas, fornecem como gêmeas estáticas, uma fresta que desnuda a parede, ocupada por um berimbau que em paisagem invade e desafia minha tristeza.

Soberbo, no seu retiro destila-se em lições de sobrevida: a inação tem sua beleza.

Um berimbau não tocado continua berimbau, sempre.

Como um rio na seca com cara de estrada boiadeira ainda tem rio aos olhos chorosos que quem o vive; ainda é rio nos mapas do Google. O berimbau quer acender este dia acomodado na displicência da fenda.

Acho  melhor ouvir João Gilberto, fuga única da possível aventura    de me autoemoldurar.

A.F.E.

A Ferroviária de Araraquara volta ao cenário principal do futebol paulista, galgando novamente a Primeira Divisão depois de 20 anos de ostracismo. Volta ao lugar que sempre foi seu, seja do ponto de vista técnico ou da tradição que esta camisa enseja.

Uma coisa interessante na história da Ferroviária é de que ela é legítima irmã do América de São José do Rio Preto. Ambas foram fundadas pelo mesmo “pai”, o engenheiro da E.F.A. Dr. Antonio Pereira Lima.

Até seus uniformes e distintivos são parecidos.

Como isso não é noticiado pela imprensa esportiva, faço-o com prazer.

Gosto do futebol do passado e a Ferroviária está nele com a dignidade de um grande clube.

Parabéns!

O CHICO

Vinha descendo pela rua mais movimentada.

Menino ainda, descobrindo mistérios.

Vinha e descia e passou defronte da loja mais sonora.

Loja com nome de personagem de Alencar.

Ouviu quatro, três ou duas vozes?

Nem sequer pensou nisso.

O que o aturdia eram palavras, Pedro pedreiro penseiro que esperava. Assustou-se. Pode-se fazer isso? Era tão forte que aceitou emocionado a música como invasão. Pode-se fazer isso?

Entrou na loja. A moça e um sorriso triste explicaram que era o último disco, que outra moça e outro sorriso (de vitória, quase escárnio) já segurava uma cédula novinha, sem dobras, de cem.

Mas a moça do balcão tentou um consolo com outro disco, do próprio compositor.

Comprou como um desafio e correu com o coração para casa.

Colocou na vitrola (aquela do braço automático, de se colocar discos em pilhas) e ouviu Ole, Olá, que o picou.

Tentou administrar a respiração, mas chorou escondido.

E nunca mais foi senão poeta.

11.2.2015

O CACHIMBO E A TAL DA BOCA TORTA

Ontem encontrei-me com um velho amigo de quem gosto muito. Um encontro físico, visto que na internet estamos sempre juntos. Ele, com todo o carinho do mundo, perguntou-me quando vou lançar um novo livro de poemas. Digo a ele que lanço um livro por semana! Ele fica meio sem jeito, e já traz rapidamente à baila o “como assim?”. Em meio a sorrisos fraternos, explico que tudo que escrevo coloco na minha página que mantenho já há 9 anos na internet – Sítio de Poesia –alfredorossetti.com.
Aí ele me diz que não é a mesma coisa, que está se referindo ao livro físico, de papel capa e prefácio.
Digo a ele o seguinte: na minha página, estão todos meus livros que já editei e todos os poemas que, possívelmente, irão compor o tal novo livro de papel, se por ventura, fizer.
Ele insiste, quer o livro livro,como ele denomina.

Aí, digo-lhe que ele venceu e que quando o livro estiver pronto, informarei a ele o nome endereço da livraria que colocarei à venda.

E para encerrar o assunto, pergunto-lhe se posso passar a informação via telegrama. Naturalmente, ele percebe a ironia, diz que eu não tenho jeito mesmo e terminamos o encontro com um abraço daqueles que só grandes amigos podem e sabem dar.


15.10.2014

CRONIQUETA DE EVASÃO

Em meio à milhares de passos nas ruas a sapatear nas mentes políticas que vivem à furtar as esperanças do povo desde há muito e a perdurar ad infinitum, resolvo correr para dentro de mim, numa fuga sem desespero, mas com a nobreza de quem manda o presente às favas e resolvo ouvir música.

Há muito que estava interessado em Caco Velho e sua malemolência (de um gaúcho?) ao interpretar seus sambas. E assim parti, não sem uma ofegante ansiedade, para encontrar mais uma genialidade esquecida e refutada pelo intelecto e  o passar da história.

Achei pouco de sua gravações, mas o suficiente para sonhar.

E nesse remelexo/garimpo reencontro um de seus maiores divulgadores: o também esquecido Germano Mathias.

Passo a manhã ouvindo este mestre do sincopado, voz da malandragem poética, arauto dos bairros boêmios de uma São Paulo quatrocentona, filha de Mário de Andrade.

Sinto que o Brasil é muito grande e já digo a mim mesmo que isso não dá samba, quer dizer não é o caso de poema, pois Germano Mathias (onde andará?) me traz, em meio a um trombone de boca, momentos felizes, que por vezes, esquecemos que podem existir ou já existiram.

Como o Caco Velho.

(23.06.2013)

NOSSA CASA

Quando disse ao meu amigo que aquela casa era de todos nós, ele concordou, pois não havia muito o que refletir. Que fazer, num dia inerte e de sol embotador, senão namorar, da forma mais saudosista possível, aquela esquina, um tanto mágica, com a casa onde habitam milhões de fantasmas, além é claro, de dona Zinha, com seus setenta e tantos anos, e cinco filhos na cadeia?

Mais de que esta situação, que já daria um bom folhetim, o fascínio pela casa. Antes dos povos, o universo. A casca precedendo o fruto. A embalagem. A visão de um mundo facilmente penetrável, sem mistérios específicos; tudo altamente tentador, onde residem formas e substâncias como nunca antes desvendados. Os tais filhos, pobres mortais, incompetentes para assaltar fazendeiros e lhes roubar os cavalos, para vender no centro de Taquaritinga, acabaram se mudando para Presidente Wenceslau, na penitenciária. Espécie indigna de morar numa casa como aquela, aliás, habitando de favor, visto que a mesma pertence a uma família, que no passado, dona Zinha prestou muito de cama-fogão-lava-passa para todos e no final, como gratidão hipócrita, deixaram-na morar na casa sem solução, já que derrubar aquela jóia seria um investimento inútil.

O centro da cidade não mais era um lugar ideal para moradia, e os chamados bairros residenciais elegantes, instaram-se no morro da Viúva, de onde se abria uma visão mais bonita, própria para a nova ótica imobiliária. E aí, alguém teria de tomar conta da casa, para que não fosse invadida, ou se deteriorasse. E como dona Zinha, era mãe de cinco peões valentes e fortes, que trabalhavam, não por coincidência, nas fazendas da mesma família, foi uma vez mais unida a conveniência dos ricos com a pobreza de espírito dessa gente. Sim, porque dona Zinha dizia a todo mundo do gesto santo dos patrões; tinham-na coberto com um teto. Ela e seus amados filhos. O que fugira dos santos senhores (haja genuflexório!), e que seus afilhados lhes roubariam mais tarde.


Mas, deixemos essa amargura socialista para os ventos e as poderosas ondas que movem e moverão sempre os passos de dona Zinha, de seus filhos, dos donos da casa e os meus.

Voltemos ao namoro à casa..
As grades de ferros, já enferrujadas, com algumas trepadeiras envolvendo-as com uma sensualidade própria das plantas (estas nunca envelhecem em sua libido), e o portão anunciando a grandeza de se adentrar ao paraíso emotivo de todos nós, incorporam a primeira visão de se retornar a espaços e a tempos não vividos, mas sonhados, o que é muito mais excitante. E o caminho entre o jardim, ainda um pouco cuidado, e a via que acessa à ventura de perpetuar o imenso sentimento, sempre inexplicável de se permanecer calado, quando o nosso interior explode em sensações, que para poder se exprimir, temos de chamá-las coloridas.

Chega-se à varanda, que na infância era dito alpendre, com seus vasos de avencas e antúrios, sobre mesas de madeiras brancas descoradas, de vimes aproximando da podridão final, mas com a altivez de deveres absolutamente cumpridos. Como um roubar de esperanças, não existe meios de entrar nas grandes salas, pois dona Zinha, embora sorria nas manhãs de sol, mantém as entranhas inexpugnáveis.

As suas e as da casa.

Ninguém nunca lhe ouviu um lamento, sobre seus passos, seus dias, seu destino. Mas dentro desta aura conformista, está a guardiã fiel, a chave alada, que impede aos olhos, que não os seus, de assistirem ao espetáculo memorial, que por certo, resplandece entre aquelas paredes, como um palco em movimento, que podemos arriscar chamá-lo eternidade.

Assim, não sei se misto de euforia e decepção, eu obtive a forma de compreender, por vezes inexatamente, os grandes caminhos a seguir, norteando meus respiros vindouros, ou seja, quando o inatingível se manifesta em nossa realidade, sigamos, num fruir de sonhos, o rumo da fantasia.

Talvez por isso hoje, eu conheço cada ladrilho, cada rachadura, cada pedaço de papel de parede rasgado. Cada angústia de seus moradores, sobretudo da jovem que habita o quarto azul, com cama de embuia e colchas bordadas, que lutam heroicamente contra as traças, dando lições de juventude, uma trincheira ante o tempo. Chego verdadeiramente a amar essa jovem, que escreve poemas à Deus nas tardes mornais, entre perfumes de flores e sons de natureza límpida. Dentro de poucas horas, estarei também dentro do quarto. Entrarei pela janela, e faremos amor durante uma tarde inteira, sem avaliar conseqüências, sem arquivar culpas. Mas caso ela me negue, estarei apto para despertar e imaginar que ela não existe, ou que tenha uma outra irmã, ou até uma linda criada de pernas roliças, que penteia seus cabelos, enquanto entoa modinhas.

Agora, caso tudo se desvaneça, será fácil imaginar:

o interior da casa estará na mais completa ruína, e a               dona Zinha dorme numa velha cama, instalada na cozinha, único cômodo sem goteiras.

SARA


Noite fria.

Nenhuma rosebud a procurar, nem mesmo um sonho a percorrer, apenas e unicamente um espelho a se evitar.

Noite fria, pasmada.  Fixa em retalhos confluentes, retalhos de lembranças. Uma voz televisiva jacta cinzas de um vulcão chileno sobre as asas dos jatos que desejo. Mas não sei se pelo risco ou a vontade inerte de qualquer viagem. Atiço a vontade de nada realizar. Risco e movimento tornam-se metáfora de tudo que em mim é inconcluso.

Noite fria e olhos na janela. Na rua, corre uma figura bonita. Mulher, de roupas pesadas e botas  longas. Sorrio ante a idéia deliberada de ser uma proteção à mordida de cobra. Não há cobras senão no vácuo de minha percepção. Ou no meu eterno medo por mania. Tudo sempre há um perigo adiante, uma aventura disposta a cronometrar meus pensamentos fugidios. Um embate fugaz traz-me de volta aos passos da mulher na noite com frio. Alegro-me por ter um porto onde começar a imaginar. A mulher torna-se companheira e dentro de mim  ouso, como sempre, contar sua história.

Sara é o seu nome. Escolho-o ao acaso de minha cabeça. Não perco tempo em saber a razão dela se chamar Sara e vou ao encontro de sua vida.

Sara é uma mulher em busca de seu destino:  a realização profissional. Por isso estuda muito. Põe toda sua insegurança na curiosidade e desejo de aprender, querendo desde sempre pelejar com o amanhã. Lembro imediatamente a luta de cavaleiros com suas lanças longas e decididas a procurar o peito do adversário. O peito que sempre para Sara foi o futuro. Logo essa imagem se esvai porque procuro pensar em seu rosto, em seus cabelos negros. Penso em Poe e me irrito com isso. Quando temos que narrar a história de uma pessoa próxima ao nosso ato ficcional, esses arquivos assolam a mente, embotam os nossos olhos às coisas simples e corriqueiras da vida de Sara. Quase que desisto do plano.  Não quero sofrer como o escritor que gerou a Macabéia. Mas o frio da noite me joga de roldão ao coração de Sara. E continuo.

Sara sofre a falta de tempo para se apaixonar. Um ou dois homens que a cercam na faculdade, dividem suas possibilidades, que morrem todos dos dias em causa de sua determinada tarefa de se estabilizar dentro do mundo, dentro de sua vida. Estuda Economia, quer derivar para o campo da auditoria. Sonha com esse poder de ser vista com a seriedade que a profissão impõe, e a vassalagem que causa. Sempre viu nos auditores  certo apuro na imagem, uma soberania inexplicável, um ser de última palavra, a que nunca se contesta. Essa decisão não deixa que seu íntimo a provoque pela não dedicação ao amor. Como se fizesse uma auditoria em si mesmo, diariamente. Como  se visse com o semblante sério, fechado à quaisquer manifestações contrárias. Como se enxergasse vulnerável. Ou lúdica.

Escrito isso, penso em estar transferindo para Sara meu desejo de ser poeta. Tenho que mudar o rumo da sua história ou acabarei como em outras vezes, deixando o que chamo tudo pelo meio do caminho.  Sara não pode arcar com minha dor de sensibilidade. Sara tem que ser apenas uma história contada. Meio e fim. Não importa o começo. Afirmo isso e desando a ver Sara em sua intimidade.

Termina seu banho e está nua. A noite linda e quente rompe em seus seios. Um clarão que nasce da sua janela derrama pequena claridade em sua barriga. Inevitavelmente está diante do espelho. Pequena soberba a faz se admirar gostosa. Adora o termo. Ri intimamente dele. Já ouviu várias vezes. Já foi chamada assim nos relances de seus passos rápidos e pelos amigos da faculdade, quando permite uma noite de chopp e MPB. De dentro de si, ilações trazem-lhe pensamento de sexo. Olhando seu umbigo, recorda um beijo que lhe foi dado ali. Mas, rapidamente, procura dissolver a lembrança e os desejos. Está decidida. Esta noite não quer masturbar-se. Foge de maneira descortês dos anseios de seu corpo. Renega a ele o gozo por se achar dona  do poder sobre ele. Está se formando dentro de sua mente uma competência de verdadeira auditora.

Acabo o parágrafo e não gosto do que escrevi. Descrever um corpo nu dentro de uma noite de calor com esse frio me parece uma coisa teatral. Mas me satisfaço com a ausência de carícias que Sara poderia ter-se premiado. Não sei o porquê. Mas gosto. Acho que começo a me vingar da Sara sem ao menos ter-lhe dado uma vida. E fico triste com a noção de que ela é inocente. Fui eu quem a escolheu. Mas ela passou sob meus olhos, na janela. Agora é minha e a faço como quiser. Mas neste momento, darei um final digno a ela. E só.

Sara mora sozinha. Embora sua família, pais e dois irmãos morem na mesma cidade. Quando conseguiu o estágio na empresa que está, somou sua mesada com o que ganha e a receita permitiu morar no centro, num pequeno apartamento de seu tio, e paga somente o condomínio do prédio. Seu tio é o seu padrinho. Sara é considerada por todos a filha correta. A estudante prestimosa, a filha perfeita. Seus pais têm adoração por ela. Seu padrinho orgulha a todos a afilhada. Sara sente o peso de ser assim. Uma dose de rebeldia seria mais conveniente. Não teria que se abster tanto de pensar em todos quando em suas cutiladas anárquicas, desde um baseado até um acordar no apartamento de alguém que lhe deu uma noite de prazer.

Deste parágrafo gosto mais do personagem. E acho que não a descrevi suficientemente bem. Deve ser este frio. Lembro-me que tenho um Romeo Y Julieta que ganhei de um amigo, que foi à Cuba e veio falando mal de tudo que viu, só para me deixar puto. Na tentativa de amenizar, deu-me o presente. Mesmo assim, acho-o uma anta. Mas vou fumar e me deliciar. Quem sabe melhoro e escrevo a Sara dignamente. Resolvo entrar na história.

– Moça, todas as mesas estão ocupadas. Você se importaria que eu me sentasse, dividiria a mesa comigo?

– Claro, por favor. Fique à vontade.

– Sempre cheio aqui, né?

– Comida boa e barata. Enche mesmo. Sabe que sempre acontece isso? Sempre a gente divide a mesa. Inda mais que estou sozinha e tem quatro cadeiras.

– Sim, e eu sempre chego no pior horário.

– Mas aqui é assim o tempo todo. Adoro vir aqui. O senhor também?

– Sim, sou velho freguês. Ou um freguês velho.

– Nada, o senhor não é velho. É professor?

– Não, sou poeta.

– Que legal. Mas desculpe minha ignorância, mas nunca pensei que alguém pudesse viver de poesia. Não ligue. É que para mim poesia é uma coisa tão distante. E ser poeta então…

– Mas existimos. Não vivemos disso. Sou aposentado. Mas minha ocupação atual é escrever versos, colocar num livro que vira fumaça…

– Vira fumaça?

– Desculpe a metáfora. É que ninguém lê.

– Acho que está exagerando um pouco. Para tudo há um público. Poesia é uma coisa divina.

– Gosta de algum poeta em especial?

– Gosto sim, de Fernando Pessoa. Mas não tenho lido. Sabe, sou estudante de Economia e meu tempo é escasso.

– Entendo. Mas a poesia ajuda as pessoas a se tornarem mais… como diria.

– Mais singelas!

– também, mas estava pensando na reflexão que os poetas nos dão sobre a vida…

– Ah! Legal. Olha, foi um prazer conhecer o senhor. Ainda mais um poeta, mas já estava no fim quando chegou e preciso ir. Qualquer dia a gente se encontra aqui e o senhor me mostra uns poemas, tá? Vou adorar. Tchau

Noite fria.

Ninguém passa mais na calçada. Com o charuto terminado e a tela do computador me pedindo descanso, deixo Sara à sua inexistência. Ou à existência de um poema que em ela se transformou:

Escrevo um verso taciturno

Dentro do erro desta hora.

Indesejo de ser noturno,

Ele não voa,

Não tem olhos para lua.

Somente ímpetos de se ir embora.

Serão os vetos ao meu coração

Ou me roubaram a aurora?

10.6.2011