ANTOLOGIA

TREM DAS

PALAVRAS

 

(2011)

 

 

 

 

 

Prefácio: JORGE HENRIQUE BASTOS

Capa: ANDRÉ COSTA

Diagramação do livro impresso: CAROLINA GODINHO RETONDO

Diagramacão digital: ALFREDO ROSSETTI

 

 

Página Web : alfredorossetti.com

Endereço Eletrónico : contato@alfredorossetti.com

 

 

 

EDITORA TAGARELA – Ribeirão Preto

 

 

 

Este livro é dedicado à memória de Apparício Lara Filho, amigo e mentor

 

 

 

Agradecimentos efusivos a Fatu Antunes e Mário Tadeu Ricci, amigos que possibilitaram este livro.

 

 

Escrever é estar no extremo de si mesmo”

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

Nesta Antologia estão contidos os poemas dos livros:

 

EM BUSCA DO VERSO (2005)

MUNDHOJE  (2006)

O QUANTO DESÁGUA (2007)

ESSÊNCIAS DA NOITE (2008)

AMOROSOS (2009)

POEMAS 2009/2010

 

dispostos em cronologia inversa,  verdadeiro trajeto deste trem,

que a Poesia, sombra galhofeira,

insiste em chamar de viagem pelas perdas e pelos danos.

 

 

PREFÁCIO

 

 

NO TREM DAS PALAVRAS
 
 
Numa sucessão de ritmos, tons e experimentações estilísticas que revelam o equilíbrio poético, Alfredo Rossetti expõe neste TREM DAS PALAVRAS, toda sua capacidade criativa.
 
O livro reúne poemas de várias épocas, demonstrando que o autor vem se dedicando a uma discreta pesquisa poética, como um estudioso que investiga sem alardes, sob a égide da imaginação lúdica.
 
Alfredo Rossetti trabalha como o químico que experimenta fórmulas para atingir seu fim, a receita certa, a palavra sã. Explorando um variado leque de temas que vão da palavra amorosa à reflexão ideológica, até as inquirições ontológicas, como nesta passagem esclarecedora:
 
 
(No sempre perco
meu documento.
A minha terra
é esse momento)
 
 
O poeta deve sempre procurar reproduzir o mundo, o tempo, as sensações de uma maneira que ilumine o leitor para fatos, à partida corriqueiros, mas que permitem reinventar as coisas perante as pessoas. No poema O MOVIMENTO DA ARANHA, Alfredo Rossetti condensa a imagem da solidão, num dos textos mais conseguidos do livro:
 
 
O bar sem afagos.
Sentados à mesa, os três.
Um homem sem olhar,
uma canção.
e revolta, tácita, soberana dos dois,
a solidão.
 
 
Tal capacidade de capturar um momento e sintetizá-lo em palavras é uma das formas que temos para admirar um poeta, de criar um medidor interior capaz de mensurar a tensão que se reproduz em nós após a leitura de um verso:
 
E a solidão obedece
seu santificado de deserto
 
 
O próprio poeta tem que se conscientizar do seu estar no mundo, dos seus limites e de sua pequenez:
 
 
Me transformo, me moldo.
Neste mundo de Deus
me afiguro, me adpato.
Nunca paro, e até
o próximo segundo
me reforço, estou apto.
 
 
Alfredo Rossetti consegue atingir momento de real poeticidade, em que a sua condição reflexiva – inserto em todo verdadeiro poeta – produz passagens que poderiam ser os punti luminosi de sua poética:
 
 
Somos uma eterna madrugada,
quando falamos à sós.
Momento em que buscamos
a verdadeira estrada:
a que nos leva para dentro de nós.
 
 
A busca do sentido da vida é percebida através da compreensão metafísica. O poeta é aquele que indaga tudo o que envolver o homem, e daí tira sua parcela de beleza:
 
 
O que foi antes passa a ainda é.
 
 
Mas se o poeta tem plena consciência de seu estar no mundo, também está atento às mudanças ocorridas ao longo do tempo. É como este espectador lúcido que Alfredo Rossetti dá um salto processual indo da reflexão metafísica, para a reflexão ideológica, interrogando-se sobre as derrocadas das ideologias, os desencantos políticos. Neste sentido, o poeta mostra seu passaporte do homem interessado no destino humano:
 
 
A foice foi-se.
Virou ponto cego.
Da foice à colhedeira
ao martelo sem prego.
 
 
A sua interrogação mescla desencanto com humor sem ser tendenciosa, pelo contrário, é enviesada pelo humor, seguindo uma tradição literária brasileira desde os modernistas:
 
 
Enquanto o capitalismo
enche o mundo de lixo
e a incompetência comunista
o homem de ilusão,
a poesia me enche de preguiça
sem qualquer pudor
ou busca pela razão.
 
 
Em TREM DAS PALAVRAS, Alfredo Rossetti inaugura uma linha poética que faz muitas paradas por diversos gêneros poéticos – poesia modernista, à maneira de Oswald de Andrade, poesia marginal, concreta, etc. –
Mas a meu ver, é sobretudo na percepção do mundo que o poeta captura os fatos corriqueiros que se transformam em instâncias expressivas, e onde gravitam os momentos mais fortes do livro. O autor funda aí uma voz para si mesmo, instilando uma expressividade assinalável. Exemplo emblemático e característica primordial deste poema, lê-se no poema O VELHO G&E:
 
 
O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda a sua condição humana,
quando a manhã o torna poesia.
 
 
Sua linguagem é sucinta, transparente, surpreendente.
 
E todos devem receber com prazer o convite para essa viagem que o poeta nos convida, com o poder de sua linguagem poética.
 
 
Jorge Henrique Bastos
 
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POEMAS DE 2009/2010
 
 
 
 
A BUSCA
 
 
busco um caminho
não só caminho
mais que ir
defluir
 
busco um papel
não de papel
antes carne
lápis e cinzel
 
busco o livre
da liberdade
da palavra
que grito encrava
 
busco o fim
antes de fim
meio vital
soro centeio
 
busco o poema
que antes de poema
sou eu
 
 
 
 
 
 
IDENTIDADE
 
sou de uma terra
que não mudou de nome
nem o telefone
mudou minha cara nela
 
uma terra de conceitos 
próprios, sem desvios
móbil e contumaz
feito rio
 
a terra do homem
que se ri
porque se enrica
se reza pela vida
 
terra bonita de ver
sentir, beber
a força do campo
e benfazer
 
mas uma terra
que ficou distante
me fez errante
e me interroga
 
terra que roga 
pelo meu interregno
o nunca estar 
no quando falado
 
no que herdado
a terra zomba
sem saber do que
me tempera e fixa
 
sem o gracejo
que me faz assim:
meio barro e jardim
terra que erra
 
e me desterra
ao vento e janela
dúvida e quimera
sem paz e guerra
 
(no sempre perco
  meu documento
  a minha terra
  é este momento)
 
 
 
 
 
O ESTRANHO
 
dentro de mim 
um alguém me tira do sério
 
um alguém-mistério 
me traz o oco
 
um alguém-sufoco
não me repele
 
um alguém à flor da pele
não me escuta
 
um alguém-cicuta
coro do instinto
 
um alguém que sinto
que não me zela e me cora
 
dentro de mim
como um alguém de fora
 
 
 
 
 
O LIVRO DA NET
 
os homens criam as ferramentas;
  as ferramentas recriam os homens”
M. MCLUHAN
 
”Este mundo (pressinto)
vai se tornar terrivelmente chato”
DRUMMOND
 
 
leio um livro
adensado em kbites
leio o livro
que não se desarranja
não fica sobre a mesa
não fica sob a cama
nem esparso contorno
 
livro lá da terra
que esbanja o não retorno
livro sem marcador
da marca do seu tempo
 
livro sem coito
filho do depois
que a humanidade desapareceu
numa nuvem espetacular
em Maio de 68
 
 
 
 
RUÍDOS MUDOS
 
 
sou o grande amor da solidão 
seu anel de grau
seu rosário
sua caixinha de música
 
me reparte durante o dia
ao sol, em qualquer horário
resta-me a um canto silente
 
povoa-me de bocas risonhas
entoa cantigas não minhas
encontro cativos de ladainhas
 
afastamento e solidão 
olhos desprevinidos
lassidão, ruídos mudos
transidos
 
e eis que o nada, príncipe destes tempos, surge
 
 
 
 
 
MOTO PERPÉTUO
 
”meu Pai trabalha sempre
e eu também trabalho”
João 5:17
 
 
me transformo, me moldo
neste mundo de Deus
me afiguro, me adapto
nunca paro e até
o próximo segundo
me refaço: estou apto
 
se a obra do Filho e Pai
é incessante
sou desta força o que replica:
o tudo ou o nada mutante
 
ontem à noite
um espinho, hoje um inhame
engrenei-me no universo
um gene que aprende
magnitude deste came
 
não busco entendimento
nem oro a contestação 
mas curioso (poeta)
o que se evoluiu
a ser meu coração 
 
 
 
 
 
O MOVIMENTO DA ARANHA
 
O bar, sem afagos.
Sentados à mesa, os três.
Um homem sem olhar,
uma canção,
e revolta, tácita, soberana dos dois,
a solidão.
 
De homem a retrato.
Acinético,  ensaia respostas à dúvidas.
Em vão.
 
A canção, gitana, malquista,
de notas decaídas,
traça linhas entre paredes sem saídas.
 
E a solidão obedece
seu santificado de deserto,
ao permitir da aranha a lentidão,
posta como único cenário movente,
quase desafio.
 
 Estanca vidas outroras inteiras
num copo vazio.
 
 
 
 
 
POEMA PARA O BADEN
 
Em seis cordas, o Brasil triste
de outono, deslinda-se cafuzo.
No violão retinto, na adoção
do pecado no grito de Vieira,
emites o chamado noturno
aos versos dos condores.
 
Consolação da noite, evocas
o silvo ábrego, em auriverdes
tendões em tempos agora de convés, 
onde apuras meu sangue
e contorces pequenas lágrimas
vertentes aos teus pés.
 
 
 
 
A MOÇA DO BANCO DO JARDIM
 
Mais que a saia
as mãos na testa como pérgula.
no pulso dourado barbante raro.
Nós e fitilhos.
E arte se completa no artefato.
 
(Meu coração é que doura em sorriso.
Salta em mim o outrora, convidado à revelia.)
 
A saia ao sol enciúma a tarde.
Passam Dois mil trezentos e setenta e dois olhos
que olham, sinto.
Olham como se fosse de Marte
 
 
 
 
ALIMENTO
 
Um pardal no meu jardim de cimento,
biqueiro e visão que enternece.
Ignora e dele a angústia eviterna
pelo minuto de um sorriso que nada evoca.
 
Quer um alimento
e nada transparece em súplica ou bramir.
 
Sem sombra de tédio, 
na irrequietude de um corpo são,
e no do meu despertar efêmero,
é tosco de jardim. Frio de cimento.
 
Vem e fita grãos espalhados,
ordenados pela natureza,
que na maneira do pré-saber,
oferta.
 
Logo, ilusão, desvanece.
E um abismo na tarde recolhe as sobras
 
 
 
 
CAMINHO
 
”Poesia e política são demais para um só homem!”
TERRA EM TRANSE  – Glauber Rocha
 
 
O poeta é o dono do seu pensamento
e pensa repartir sua luz na palavra não palavra.
A que, fina e repressora
do que se entende à primeira vista,
ao primeiro demão.
A poesia, estado de viver se exteriorizando,
tem o afã de apregoar o infinito.
 
De resto, apenas uma vida que se borra.
 
 
 
 
O MARCADOR DE LIVROS
 
coloco em meio às páginas de Drummond
Maiakóvski
 
bem em cima do Áporo
no encontro poeirento da entomologia
 
desconforto que passa ao largo
de estantes tediosas
 
entre travessias angustiosas
um olho
que não se deixou-se matar
 
amanhã ele (o olho)
iluminará o caminho do meu olhar
 
na volta infinita ao bosque da poesia
 
 
 
 
 
TERRA
 
Terra não é só chão onde esteiram nossas sombras.
Não só punhado de terra areado sobre mortes.
Terra não é só sonho alimentado por posse,
distante de qualquer coisa que se imagine
no fim do que não se enxerga.
Terra não é pátria nem o amor por ela.
Nem o berço celebrado ou história que se guarda
Terra planeta girando no abismo
é filha do nominalismo.
Estas Terras não são a Terra.
Terra é a impossibilidade do que pensa sobre a Terra.
O que nunca será.
O desejo da surpresa de onde atracar.
O insabido, onde buscar.
Terra é um infindável desterro dentro de nós.
 
 
 
 
O GOSTO QUE SE DISCUTE
 
O homem olha o Universo:
sente-se pequeno.
O homem ouve um pio na mata:
sente-se pequeno.
O homem sentado na praia:
sente-se pequeno.
O homem diante do tempo que contam os livros:
sente-se pequeno.
Mas o homem com as escolhas nas mãos:
não pode sequer pensar-se pequeno.
 
 
 
 
O VERSO
”Repara: 
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.”
DRUMMOND
 
plantas ao pé da tristeza indócil
o desequilíbrio entre a face e a outra
o indício
 
jogas ao precipício flores do susto
a vida remete ao que vem
o surto
 
a pele rasga no papel o coração 
processo – adaga e folia
comoção
 
um beijo de mote – um soluço léxico
verso na noite pulsa e rebate
lítico
 
plantas mas não colho na hora vernal
posto ser indelével – segunda vinda
 vergel
 
faço da palavra pingos de chuva
busca zelosa e infatigável 
da chave
 
 
 
 
MOSCAS E RESMUNGOS
 
quando menino
olhos de radar
olhar de redor
olhos de não dormir
 
quando menino
espreita de ossos
e sem que tivesse
um telefone a tocar
 
quando menino
a espera sem sal
música a bailar
sem passos de cem
do tango universal
 
quando menino
moscas e resmungos
muro de pedra
escada trêmula
esquina e fungo
 
quando menino
o que se era não era
para ter antes
(quem lembra quer sorrir
quer festejos e nozes
quando o depois tem algo
como o rio que segue adiante
 
quando menino
a lesma pós chuva
era a irmã 
o amor doía
e chuva queria
toda manhã 
 
quando menino
muito cheiro de vida
cheiros e rimas
 credos e bueiros
 
quando menino
pior que a morte
o olhar penitente
a face da cruz
 
quando menino
esmoía de frente
com visão de goleiro
as frestas de luz
 
 
 
 
VÍCIO DAS CINZAS
”Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente.”
MANUEL BANDEIRA
 
 
Pontilho um sorriso de entardecer
no filamento de uma lembrança 
que agoura a chamuscar o momento.
Acontecimento que se debate.
Ponte arcada soçobrando o tempo
 
a estreitar arranjos impossíveis,
a vasculhar sôfregas tentativas 
de renascimento, parcos consertos,
bandagens no feito, tolos reparos.
O que foi antes passa a ainda é:
 
perfume de hoje, espinho fresco
de ponta acerada, arraigada.
Flama no segundo dorido, sem fim
que se espera, acalora ou alivia
posto ser tempo que não se divide.
 
Brota em mim o desejo de cortina
eterna a exaurir o vício das cinzas.
 
 
 
 
A VELHA BANDEIRA
 
Lá vai o cabelo desalinhado, gris e nazarita.
Lá vai a camiseta sem manga.
Lá vai o desafio andante assobiando Hey Jude.
Lá vai nubívago, entre pernas e fones de ouvido.
(Tudo na rua é colorido, menos ele, traço em nanquim)
Lá vai e passa com o que passou.
Lá vai um tempo embaraçando outro tempo.
Lá vai o velho hippie agarrado a galhos de seu sonho.
Lá vai, sem cair.
 
 
 
DEVASTAÇÃO 
 
penso na região do Araguaia:
lona de ringue sem beijo
civilização maia
impotência sobre o desejo
rastros apagados
veneno de tocaia
ameaça terminal
mastros quebrados 
livro do século XVIII com traça
edênica querência abrasada
 
amanhã pensarei sobre o nada
 
 
 
 
HAICAIS
 
o raio de luz
dentro da noite flutua
partilha da lua
 
fugaz, viça e cai
maneira da cerejeira
ser flor samurai
 
 
 
 
CASA DE ONTEM
 
porta de entrada
imagens do infinito
soberba do tango
passagens e grito
vento pequeno – avencas
quintal e a estante
posto que pouco fica
vago coração distante
 
 
 
 
NOSSO AMOR
 
queres que seja dor? então vem lenta
e vem assim como quem tenta
se puderes traz sal e pimenta
a água deixe na lua – que fique benta
se vieres anda como gato procissão folhagem
sem unhas sem o suor de última viagem
se queres sê a dor mas não a de ferir
a dor raiz – a dor do só dor
a dor do jeito que nem a dor gosta
a dor que intervala (nem sempre disposta)
a dor, se queres ser, a crua ao relento
se queres cinza pinta a aparente
dor da gente – a dor cavada
mina de prata, escora, semente.
 
 
 
 
ENCONTRO
 
quero adormecer neste abraço
quentar a vida neste toque
revoar como pipa multicor 
segurar essa forma no espaço
outro verso
outro eclipse
noutra dor
 
invocar o sabor deste entrelaço
e ungir o que virá
no cumprir do arquétipo que adeja
e ver o estilhaço
desta placidez sertaneja
desflorescer na volta 
a um tempo de cansaço
 
 
 
 
POESIA ANÊMICA
 
desenhados em giz
apagados em giz
fáceis em giz
lá vem festejando o trem que nunca virá
nunca será
não sairá
nem passará pela estação 
de quem espera
de quem suspira
de quem pode marcar
se marcar
se redimir
através de um lirismo
que se desbota a cada passo
do que não se move
 
lá vem festejando o projétil fosco
cheio de gentilezas mas ignavo
afebril
 
versos de brancos dentes
versos que se iludem
não reativos
 vesgos
palavras vulgocráticas
desistentes do poder de seu mistério 
 
 
 
 
VINAGRE
 
a foice e o martelo
o que ficou: que se pensa
no livro de história 
livro de estudar 
chato de ler
morta memória 
uma quarta de cinzas
um pobre samba meu
onde está? escafedeu
 
a foice e o martelo
medrou
assustou
assustou-se
empobreceu
entrou pela goela
ninguém fala mais
libreto de ópera 
ou virou mortadela
nem na net
nem no prelo
 
a foice foi-se
virou ponto cego
da foice à colhedeira
ao martelo sem prego
 
quem sabe ainda volta
logo depois do banho
com roupa mais jovem
e outro tamanho
 
a foice e o martelo
um sonho paralelo
 
 
 
 
CONTO NUM POEMA
 
Ná sétima cornija, num dia de garoa como todos os outros, encontraram-se na ladeira do Verso Manco, sobriamente vestidos, timidamente viventes, Carlos Drummond de Andrade e Fernando
Pessoa.
 
O Carlos, ao ver o outro possuído de Mestre  Caiero, quis ser mineiramente gentil, dizendo logo 
um verso:
 
”sou um homem dissolvido na natureza,
estou florescendo em todos os ipês” (1)
 
Mas o português, com vontade de vicejar em outros mares ou riachos, de forma deseducada, foi
embora num estremecer corpóreo. E apareceu o Fernando, que após sacudidelas, ajeitou os
óculos e pouco solene, murmurou ao colega de grandeza:
 
” – Vou ao Abel!”  (2)
 
 
1) Versos do poema Tempo de ipê, de Carlos Drummond de Andrade.
 
2) Frase dita por Fernando Pessoa, várias vezes ao dia, no escritório do Sr. Moitinho, onde trabalhava de tradutor comercial, quando saia para beber um trago de aguardente.
 
 
 
 
A ONDA
”só as ondas se sucediam,
em cada onda o mar se despindo
sem nunca chegar a nudez”
MIA COUTO
 
Sou invadido por um tempo perdido.
Onda mansa que atinge o fim da praia.
Demora a voltar, querendo ficar.
Traz consigo a incerteza da notícia
dentro de uma garrafa.
Molha-me. Esfria pretensos mergulhos.
Nada grita, nada mostra; corrói.
E a dor que porta, distribui de sorrisos nos lábios
Quando a temo infinita, esvai-se.
E com o rosto ao sol, respiro novamente
na confluência do marasmo de hoje
e um acorde beatle imorredouro.
 
 
 
 
O VELHO G.E.
 
O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio 
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda a sua condição humana,
quando a manhã o torna poesia.
 
 
 
 
A POESIA
 
1.
A poesia traz água para quem não tem sede.
A poesia alivia a dor que não se sente.
A poesia verte água que se singra e o bálsamo que suscita.
A poesia assoma o que está sob pedras do aflitivo dos dias.
Atrás dos portais do efêmero, do raso.
O sorriso alardeado na manhã nascente de tristeza,
lágrimas escoadas em meio a festejos de amor,
são outras sedes, outras dores, alteadas 
no momento em que a poesia cava a nossa alma.
 
2.
A poesia acolhe-se à margem do aquém mundano,
Sai em busca do não-comum além cigano.
Sem garras (já se disse nas sombra),
nem masmorras, súbita aparição do usual,
antinatural, provém o homem de outros braços, 
outras rosas, novas pernas, laços, forjas, 
outro mundo que não se vê direto, claro,
enquanto suporta a tralha que de vida escorre.
Com versos revogados no peso dos dias,
a poesia, díspar, manancial e arte,
não trabalha nem morre.
 
3.
Cordata, a palavra aloja-se tranquila, mas inócua.
Assenta ao branco como um leito.
Quieta, sem presságios.
Corto-a ao meio, desalojo-a tangente.
Ela renasce em calor e prova da missão lírica
sem suspeição. E mesmo menor, ínfima de espessidão,
prova do destino de gestar o poder de afago
que o papel domado e silencioso jamais sonhara.
 
4.
E o verso nasce, sopra.
E contém aquilo que não se espera,
não deixa que se vergue.
Não permite a afronta e se cristaliza 
como águas das chuvas que caem,
escorrem e são levadas, amor fati,
sequentes, sábias no seu caminhar
Não importa muito a fugacidade.
O momento é viva, motor e arrimo.
Brota, serve e adormece feliz.
Dentro de cálices de estrelas,
compartilha o espaço com a grandeza
e a loucura, junto à toda poesia do mundo.
 
5.
Versos, têm dois.
O da hora marcada e o outro, fértil.
que nos desencontra.
 
Do verso que se espera é um só fingir de belo.
Verso vaticinado, no patíbulo, amarelo.
 
Mas os pais de nosso delírio, o inesperado,
este que é turba, saltimbanco,
em nossa alma joga dados.
 
 Verso que não se rende ao adivinhar da mente.
Verso que sempre assalta, fustiga, que se sente.
 
Improvável, inaudito, que dói mas alivia.
Se não puder outro nome, que lhe chame poesia.
 
 
 
LEVE FANTASIA
 
”Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia”
CAMÕES – Os Lusíadas – Canto IV 99-2
 
 
Não se retira o medo do amor ao mito.
E passam anos, séculos e se enaltece
Sempre a busca do poder infinito
Que o homem à bula envaidece;
Salta sobre escrúpulos sem rito,
Morde ouro, crava dentes, se esquece
Do brilho da estrela que o governa
E se morre, deseja a glória eterna.
 
O homem é o mesmo do ruprestre.
O mesmo cego da Idade Média.
Mata o que respira, o silvestre;
Coloca os seus muros na ideia
Que ter é a essência de um mestre
Da vida e da luta em alcateia.
Nada foge de sua cerimônia,
Nem a divina mata da Amazônia.
 
Mesmo com o sessenta, flor sonhada,
Nada restou em nada que se ame.
Estamos na caverna, qual morada
Do sempre, sem que a luz do céu derrame
E nos traga a redenção esperada
Ou que a irmã Virtude nos reclame.
Mas sabemos: o tempo envelhece
E a religião nada leve tece.
 
Que também singra em busca de seus mares,
Mas de forma estrana, nos ensina
Que a pobreza de seus antigos pares,
A boa nova que não mais fascina
É o que permeia sempre nossos ares
E arrecadar mais é o que determina
Ao homem buscar valer sua sorte
E enquanto vive, vive a eterna morte.
 
Não se ouve o brado do velho louco
Porque ele já não há neste destino.
Tentar novos gritos é muito pouco
Porque fomos forjados em desatino,
E as nossas vozes neste timbre rouco
Jamais terão a Graça do menino
Que trouxe o amor, mas deixou dilema:
Poder amá-lo sem ler seu poema.
 
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AMOROSOS (2009)

 

Dedicado ao cantor e compositor Roberto Carlos, que influenciou estes versos.

 

 

 

”Mas quem é esta misteriosa que é como um círio que não se apaga crepitando o peito?

Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

VINÍCIUS DE MORAES

 

 

                 

ESCURIDÃO

 

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”

SOFHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

 

Amamos a pele buscando o sonho.

Tentando sublimar o espírito,

entregando-nos por inteiros na exigência da posso de que  amamos.

Amamoso tempo todo em frágil teia.

Espreitando portas,

auscultando sinais,

espremendo a emoção.

Amamos o tempo todo em receio.

Amamos a vida inteira no escuro.

Amamos o curto tempo de certezas.

Amamos para sermos inteiros e acabamos sempre aos pedaços.

Amamos muito, até à exaustão.

Na surpresa do desamor, recolhemos retalhos e os cozemos com lágrimas

E aprendemos que amar não é senão duvidar.

E esse é o mistério que nos move.

Depois, apartados do que não entendemos, seguimos em frente

tentando nos agarrar naquilo que nem sabemos mais o nome que tem.

Amar é usar o verbo que apenas se diz, nunca se fala.

Amar é incertar.

 

 

 

 

Não te quero minha.

Não te quero com um presente.

Não te  quero como uma flor que se colhe,

olha e guarda entre páginas de livro.

Nem te quero em minhas mãos,

aprisionada de paixão.

Tampouco quero-te divina, inatingível,

a dona dos meus versos.

Quero-te apenas como a madrugada quer a aurora.

Para reviver-me com os raios de sol que nascem de ti.

Quero-te assim: canção da manhã.

Para que eu possa saber que existo,

enquanto me iluminas.

 

 

 

 

Parto em tua direção

mesmo sabendo que estás distante.

Mesmo sabendo que entre nós há um vale

se sonho distante

Parto em tua direção

como quem busca um diamante

Mesmo sabendo que jamais

ficarei perto de teu sorriso iluminante.

Parto em tua direção com desejo de renascer,

nem que por só um instante.

Parto em tua direção e navego em ti

pela lua, nesta viagem delirante.

 

 

 

 

O que é, afinal, este amor

que cada dia que passa

ao meu coração proclamo?

De onde veio, onde brotou?

Numa noite de chuva

ou foi quando o céu se estrelou?

Veio pela colina do tempo

ou escorreu por esta solidão

de que tanto reclamo?

Apareceu em mi

ou nasceu aqui mesmo

num verso que nunca declamo?

Não é necessário resposta

quando me sinto feliz

com essa lágrima que derramo;

mesmo sabendo que de onde veio,

o  vento afasta qualquer dúvida

quando penso que te amo.

 

 

 

 

Quando penso em ti,

lembro a figura de um pássaro azul,

celebrando a vida com seu gorjeio.

E assim, voas e me carregas junto.

Vamos até a mais alta montanha,

entre escarpas perigosas,

onde me tiras qualquer receio.

E percebo a verdade única,

que teu olhar de silêncio

murmura: que teu amor

é um campo de esteio.

Depois, pousas em meu colo

e me tocas levemente

e o mundo se aninha como criança

da doçura do teu seio.

 

 

 

O que é o longe para o pensamento?

Que é a ausência para o coração?

De que forma sofrer se temos a lembrança?

Os mosaicos de momentos já nos perpetuaram

juntos, colados como um beijo de amor.

Se vivermos pelo menos um só instante

já temos uma vida a celebrar.

Se falta um contato de pele,

sobra, dentro de nós, a ternura do sorriso,

este de uma saudade ao redor, dançante

e efusiva; saudade de fechar os olhos

e poder ver; este sorriso de recordar.

A distancia apenas separa o corpo,

nunca a alma.

 

 

 

 

Nesta noite estou contigo.

E conto nossa história

a um estranho amigo.

Conto de nosso jardim

que imagino seja

onde plantaste amor em mim.

Que teu rosto de agora

é uma pálida lembrança

nas sombras desta hora.

Conto com impaciência

que o passado arde

na flor triste de tua ausência.

A palavra sai pura,

meu pensamento voa,

atrás daquela ternura.

O que resta de nós dois

é um eterno depois…

 

 

 

 

Se te peço que venhas, não fiques no inverno.

Chegues ao meu jardim e veja minhas mãos pedirem-te flores.

Se te peço que venhas, não desejes a  noite.

Imagine minha dor, filha pródiga, esperar-te o pouso.

Se te peço que venhas, não ponhas roupa nova.

Espero na sanha do dia, fuga de sonhos, ver-te inteira.

Se te peço que venhas, não roubes a rosa.

Deixe que eu te  perfume na saia da madrugada quando chegares.

Se te peço que venhas, não digas nada.

Deixe que meus versos, não digas nada.

Deixes meus versos receber-te, cálida, funda e serena.

Se te peço que venhas, deixo-me por um instante.

Só voltarei a existir quando aqui estiveres.

Linda e bem-vinda.

 

 

 

 

A ar é ter-se.

Amar é rir-se.

Amar é saber-se.

Amar é seduzir-se.

Amar é cheirar-se.

Amar é nunca doer-se.

Amar é acamar-se.

Amar é amar-se, com um travesseiro em nossa cama.

Amar é não explicar-se.

 

 

 

 

Talvez, antecipando o tempo, encontro o paraíso.

Muito mais que conforto, a sensação de descobrir o bem preciso.

Penso estar louco, mas não, lá está ele, soberano e luzente.

Na emanação do seu sorriso.

 

 

 

Teu olhar entra em mim e tomas posse do meu dia.

Como um beija-flor buscas a vida no meu resto de alegria,

que reparto na noite ninfa com a tua fotografia.

 

 

 

 

Naquela árvore dança a folha.

Quem ama não de e deixar que a colha.

Mas, caso seja um coração, afague, recolha.

 

 

 

 

Névoas no sentimento quando a noite já vai alta.

Procuro relembrar tempos que sorria com você

e não havia esta dor que me salta.

Como não querendo entender que descaminhos existem

não tenho outra saída senão pedir-lhe perdão

por sentir tanto a tua falta.

 

 

 

 

Na noite, procuro o sono.

Olhos cinzas, flor do mal, abandono.

Ao sentir que estás aqui, dissolvo-me

dentro do quarto e me emociono.

Aí, tu te transformas em chuva leve,

folhas de outono.

 

 

 

 

Um pássaro triste na janela logo cedo.

Penso em tua ausência, morro de medo.

Outrora, apenas sorriria, quando rochedo.

Mas, agora, escravizado que sou, sofro em segredo.

 

 

 

De nada adianta esconderes algo de mim.

Teus olhos contam.

De nada adianta não me contares tuas vontades.

Teus olhos te devassam.

De nada adianta reprimires teu afeto.

Teus olhos me dizem de forma clara.

De nada resolve te manteres calada.

Teus olhos conversam comigo.

De nada adianta só me dIzeres não.

Teus olhos discordam de ti.

De nada adianta me negares um olhar.

Teus olhos já se instalaram dentro do meu  coração.

 

 

 

 

Sobre você no porta-retrato pousa um besouro.

Não sei, inseguro que sou, se é bom ou mau agouro.

O instinto de apego bate forte

quando percebo que posso perder meu maior tesouro.

 

 

 

 

Da tempestade, dizem,  viceja a bonança.

Do amor que se vai, nasce a lembrança.

E o amor que há de vir, cavalga a esperança.

 

 

 

 

Ensaiei a sinfonia do Sol, mas escureceste.

Voei os mares gregos, mas estancaste.

Busquei a jazida do azul, mas escureceste.

Atravessei a linha de toda uma vida, mas desamaste.

Teci a aurora das cores, mas defizeste.

Plantei jardins no mundo, mas não vieste.

 

 

 

 

Cuidado com o amor descuidado,

mesmo com cheiro de baunilha.

Acaba nos deixando sozinhos

como a dor de uma ilha.

Nao pode ser amor

o que nos ata ao chão

feito armadilha.

 

 

 

 

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ESSÊNCIAS DA NOITE (2009)
 
 

”Mas esquecemos. O dia perdoa”

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

SINOS SILENCIOSOS

 

Porto no bolso a espera

na síntese do que emboca,

a cada dia que deslizo

dentro de seus mares.

Que rejeita os sinos

os fogos e o gozo

que morrem em véspera

do que me anunciei.

Tudo se posta tarde,

passado e côncavo

na saudade de mim

qiando nunca fui.

Um espelho torto,

dragão e fomentador

nem me reflete

nem me abjuga;

apenas mostra um rosto

que fustiga o que de mim

escorre e não deixa

nascer o que me conclui.

 

 

 

 

NOITE PASSIVA

 

A noite que não é negra

é noite sem entrega,

sem presságio de noite.

Noite sem refrega.

A  noite que se nega

é a noite de meio termo,

sem tango, que desmaia.

Do que não é enfermo.

A noite que não se regenera

é noite que não se ouve,

silêncio que não se grita.

Grito de garganta fria.

A noite que anseia o dia

é a noite que escapa,

círios que se apagam.

Bola na caçapa.

A noite sem defeito

é noite com trégua.

Algo que não se mira,

noite do não feito,

noite sem escravo,

sem soluço, sem medo

Que se cala e não crava

Unhas no degredo.

Noite que termina,

que fisga espaços.

Nesga pantomima.

Noite aos pedaços.

 

 

 

 

CHORO NOTURNO

”Eis porque minha alma ainda é impura”

MÁRIO DE ANDRADE

 

 

Longe de ti.
Perto de ti não respiro.

Sofro pela inépcia da noite e teu pêndulo.

A que chamas amor – noite vem, noite não.

Pela lógica que é minha e que passas remota.

O não entendimento é quase gráfico,

subalterno a todos os argumentos.

A prisão ao cigarro não é nada free.

Bebo o prazer de ter dor e a fumaça.

 

 

 

 

VERSO DA NOITE II

 

Frívolo cantador de suores distantes,

desvendo o que refuga num poema arrepanhado.

Ante a flor de pétalas dissonantes, se cismo,

retiro do pulsar um abismo de estupor

da angústia ávida pelo fado.

Um salto em torno da vaga por mais alto

a paliçada da trajetória aflita,

cumpro e excluo da madrugada o calor

de que não sei se desdita e encaro

a dor do nada que dentro de mim se agita.

É quando um verso que não morre  alteia

o que está imerso, e na cisão da falsa teia,

salta e à pena ensina: tudo isso que escorre

é o viver na noite finita, que me abrange

como um lago que socorre e ao se enfeixar

com o alvorecer, se jardina.

E como espectro de mera fita, declina.

 

ESTRELA INCÓGNITA

 

A insegurança irrompe-me em qualquer lugar,

em qualquer segundo.

Mas uma estrela de tutela indecifrável,

irradia o sim fecundo.

Uma espécie de aragem de sorriso aberto.

Mãos que ameigam e me trazem de volta ao mundo.

 

 

 

 

NOITE TRANFIGURADA

(Visitando Shoemberg)

 

Vários tons

de cores notas e ânimos

vão somem voam vêm sobressaem do limbo.

Então tecem

 

vários tons da noite.

Noites adentro de vozes

desarmoniosas

em perfeita harmonia de vários humores

pecam afligem sangria da paz

quiçá flores.

 

Vários to s de fixas regras

irão tornar o único desejo reflexos

apanhas

entregas negras de

 

vários tons que colhem do século tecidas curas.

Feridas puras.

Grito no pedestal do seco abissal.

Ciclo onidirecional.

Banza fúsil em ternuras.

 

 

 

 

NOITE ALUCINANTE

 

Potros ao vento,

signos e sonhos,

portos e caudas;

suores medonhos.

Sono de pedra.

Alma ruprestre.

Jaula na noite.

sem viga mestre.

Luar desbotado,

palavra não lida.

Boca fora do tom.

Data vencida.

Beijo estranho

na morte doída.

Alçapão que indica

sem saída.

Inferno, pária,

morsa e aluvião.

Deus inafetivo,

filho de Abrahão.

Amnésia e partida.

Lua de botequim.

Cheiro do riso:

o prazer do fim.

 

 

 

 

NOITE SEM FIM

 

cruzes em pé

espada flamejante na  beira na costa

sono delirante

criança amendrontada

fixas ondas cortes rápidos – fixas ondas

viagem interior

vaga atormentada

tapas de cima de lado – do outro

cálice de ouro cheio de incenso

um coro

besouro (imagem cimentada)

cruzes em pé

espada flamejante no dia aziago

nunca terminante, nunca fica o nada

peça de couro vira chicote na plena noitada

vaga chicoteada

declive no quando confete e serpentina

mesmo saudade

mesmo sem retina

declive tesouro

descanso do cálice de tapado

de outro sopro que anima

cruzes em pé

espada e dardo

tarde e noite

chaga e fardo chega e sai

nunca que cai no quase soluço

madrugada se esvai

 

 

 

 

MALUCO REALEZA

 

Raul é tão eterno quanto seu nome ao contrário.

 

 

 

FÉDON

 

noite escura

noite clara

a morte procura

a sabedoria aclara

 

noite escura

noite clara

o plenilúnio perdura

o triste enluara

 

noite escura

noite clara

a espera pelo sol tortura

a eternidade ampara

 

noite escura

noite clara

noûs abjura

o veneno da tara

 

 

 

 

A ESQUINA

 

Ao amigo Mario Pinheiro de Carvalho

 

A esquina era aquela;
sonho e esquisitice de risos sem futuro.
Era da cidade, mas a esquina era dela.
E  nos possuía nas noites em que tentávamos o fardo de viver
descobrindo sustos, despavoridas inquietações,
que se agarravam na essência da fúria probabilista.
A esquina era bela.
Onde sentávamos com o cigarro sem fósforos,
esperando o fogo da juventude aclamar mais um dardo atingido.
A esquina era sequela
aos tempos e vidas incontáveis, de vidas de passagens,
passeios e tristes fracassos e buscas por tentar entender o pão do dia.
Mas a esquina não era ela.
Era a que abrigava conversas sentadas,
madrugadas de um espinho camaleão,
de jogos interiores de cada um que recusava o passo,
antes o estilhaço de se ancorar no insabido.
A esquina era viela.
E por mais espaço, era própria de um pequeno mundo
de pequenos mundos, esconderijos de todas as sensações
em que éramos das cavernas, das inquisições,
do encarte positivista dos pais,
da dormência obliterada de uma fálica nação
sempre a servir-nos uma espera fria,
que, mágica, transformava,
em momentos de esquiva, a esquina em cela.
No meio-fio, rutilantes entraves insinuavam ambições
do que era o próximo segundo,
do que nasceria no amanhã,
no que fiaria nas nossas mentes,
nos livros, nas repetidas conversas, nos filmes,
na canção gratificante de um tempo rico de canções,
maiores que o próprio tempo,
que não deixaram a esquina ser mazela.
A esquina era a cancela
para todos os lados do vir a ser
ou para o alto da escada sem degrau ou rampa
para o acesso de tantos sonhos que,
só ao voar, chegaríamos em tempo de triturá-los
e experimentar o sabor de tudo que a vida,
hábil e dadaísta, proveria a todos enquanto peça
da humanidade que respira como alvorada onde está o tudo:
no meio da esquina paralela.
Nisso, íamos nascendo.
Enquanto o barro secava-se não ao sol,
mas ao cio da lua,
a esquina era a costela.

 

 

 

 

NOITE DE NELSON FREIRE

 

O piano angelita oscila

entre tangível e eldorado.

A mais sensível gota

de existência nos olhos do artista.

Pálpebras que remetem avisos.

Ao íntimo desconhecido,

via mãos grávidas da entrega.

Ao maestro:

cada segundo deve repelir o estatismo de viver.

 

Orbitam as retinas em maio à emoção

compartilhada com centenas de outros olhos

que esteiam o ouvido da noite.

 

Noite de música vista, descortinada.

Noite de cena final na lua da Casa de areia,

Noite de condão, diluvial.

Noite de olhos. Fixos, marejados.

 

 

 

 

SOLIPSISTA

 

A porta aberta, cigarro aceso.

Dentro da noite de dentro do escuro,

ruídos túrbidos atiram pedras no pensamento.

Sem clarão de lua a penetrar no espaço

do homem que vira bicho se não dorme;

que vira lixo se não se domina.

Aguarda-se o que virá.

Sem saber se virá, sem perceber se remirá.

Quanto  mais a noite adentra,

mais a impossibilidade,

adventícia e nêmesis cresce,

para nunca mais desgrudar.

 

 

 

NOCTÍVAGO

”Yo solo describo el mundo. Estoy solo.

La soledad es amiga de los roces del cuerpo.

VIRGÍLIO LÓPEZ LEMUS

 

Temo que seja dor o que escondo

do olhar no espelho.

Temo que seja desta dor o enlace

da melhor parte: a de escombros

da noite, o do momento ateu.

 

Longe dos engates que o tempo traz,

a luta por paz nos alija da mandrágora,

que origina a delícia.

 

Frutificamos pelejas à espera da chuva,

a nos abrandar enquanto debaixo da terra.

 

 

 

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O quanto deságua…(2008)

 

“eu ia em mim perdido, em mim pensando”

DANTE MILANO

 

 

 


O rio carrega
seu silêncio triste.
Busca um descanso,
que jamais existe.
O rio e a alma
têm a mesma face:
o quanto deságua,
o quanto renasce.
(9.9.08)
 


A palavra fia meu rumo.
Tange minhas escolhas, me
efervesce. E quando noite
em mim,  mesmo às vezes
pálida, me amanhece.
(23.7.08)
 


Os sapos cantam
na escuridão.
Os grilos também.
Poesia? Bandeira?
Não, apenas solidão.
(19.8.2008)
 


Estrela guia,
canção perene
da manhã, doce
Cecília, à esfinge
em ti me assemelho:

– qual de minhas faces perdeu-se em teu espelho?
(25.9.08)
 


Nova porta, novo labirinto;
me tonteia
como um cálice de absinto.
Mas o chamo de novo caminho,
mesmo sabendo que minto.
(21.6.08)
 


Trem de ferro.
Janelas de luzes íntimas invadem olhos da memória.
Passam açudes.
Passam açoites.
Passa a minha história.
(5.8.08)
 


Foge do labirinto
de tua falta de brisa
e do dia que não te nasça
revestido de festa.
Esconde de teu coração
este tempo que passa
e planta tuas flores
no tempo que te resta.
(7.8.09)
 


Não façamos projetos de casas,
barcos, apólices; coisas
que aterrem nossas vidas.
Tenhamos apenas asas
e incessantes partidas.
(14.8.08)
 


O olhar é um poema sem palavras.
Que não se lê,
nem se pode pegar.
Enigmático e brando
como um raio de luar.
(29.8.08)
 


Cavalgo ventos mais lentos
que a erupção do tempo
em que o mundo se pendura.
Perco em todas as trocas,
Carícia desbotada,
Sorriso que ainda se debate,
sou um necessitado da ternura.
(26.8.2008)
 


Não preciso de muito nos dias atuais.
Apenas o desdobrar deste momento:
colheita da vida
na seara do pensamento.
(25.8.2008)
 


Somos um eterna madrugada,
quando falamos à sós.
Momento em que buscamos
a verdadeira estrada:
a que nos leva para dentro de nós.
(15.8.08)
 


O leitor absorve
e se enriquece.
Enquanto o ledor compartilha
sua messe.
(4.6.08)
 


Na manhã de febre,
quero tudo que há no mundo de uma só vez.
Sinto-me repartido como nunca.
Um fone de ouvido me diz,
de forma reclusa, que minha alma
é irmã da alma de Zélia Duncan.
(1.11.2008)
 


Ah! Poesia,
noite singela e não vens.
E cansas o meu olhar.
Vem! Se queres,
traze-me o sono.
Só não me impeças de sonhar!
(21.6.08)
 


Não tenho medo do futuro.
Nem de ter esperança.
O que me estremece
e me tira do chão
está onde minha vista alcança.
(11.4.09)
 


Escrevo versos
para que o momento pretende.
Incoeso, necessita de rebites.
Sôfrego, arqueja ao lirismo.
Sou poeta porque
às marés minha alma tende.
(1.10.08)
 


Uma lágrima cai.
Aí se sabe que um ai
nunca é festa;
ai subtrai.
(8.3.07)
 


Ó minha ode pequenina,
toma-te da emoção
e beija (por mim)
o coração
de Cora Coralina.
(24.6.08)
 


Ao vento ciciante,
a visão me fascina:
gotas de chuva saltitam
numa réstia de luz
na água azul da piscina.
O olhar desperta a alma,
o instante me ensina.
(14.5.09)
 


Não preciso que morras de amor por mim.
Nem que me beijes como fera.
Tampouco me louves a cada instante,
em oração.
Não, não  é preciso.
Mas se me disseres que um verso meu te emociona,
aí me sentirei amado.
Amado como nunca fui.
Porque meu verso é o meu coração.
(1.11.08)
 

22.
Neste pré-outono,
quero minha rede.
Pendurar delírios
na minha parede.

Não sei se o cultivo
pelo pensamento
deixou-me vontade
de florir pensamento;

mas sim a certeza
do inadequado
ao susto de hoje.
Tempo esquinado.

Não quero gavetas,
nem plantar remédio.
Eu quero o que ganhei,
Inclusive meu tédio.

Todos sonhos juntar
dentro do meu bornal;
o que ficar de fora
deste universo

que seja o meu quintal.
(17.4.09)
 


Não preciso senão de um soluço
e da palavra frágil mas direta
no instante teu em que me debruço
para mostrar-te minh´alma inquieta.
E se neste instante me ouvires,
nele serei teu eterno poeta.
(10.1.09)
 


Quantos são os arcados
da emoção.
O quanto se é.
O quanto se foi.
O quanto em vão.
(5.3.07)
 


O que não tenho me assalta.
Perdas ficam como um laço.
Mas não troco dias livres
pelo ouro que me falta
e sorrio sob versos
às perguntas que me faço.
(1.4.09)
 


Enquanto o capitalismo
enche o mundo de lixo
e a incompetência comunista
o homem de ilusão,
a poesia me enche de preguiça
sem qualquer pudor
ou busca pela razão.
(12.5.09)
 


Coisa esquisita, a morte.
Esquisito não estar mais.
Não ser mais.
Coisa esquisita nunca mais pensar.
Coisa esquisita a morte ser esta coisa tão viva.
Ser coisa, não ideia.
(25.4.09)
 


Soberana do artifício,
a mente escarça-se. Bulício,
poeira, chafariz.
Não há dia e nada fica.
Rosto ou cicatriz.
Hoje estou sem sintonia
como se fosse uma folia.
(27.8.08)
 


O sonho é criança.
Faz contraponto à vida,
mercê sua vontade.
E a vida faz do sonho uma pipa
e a empina na tempestade.
(4.8.08)
 


Da gaiola da minha vida
só se libertam meus sonhos.
Penso que um dia me levarão em asas da quimera.
Mas, fruto absoluto da dor, que sou, temo:
como viver sem essa espera?
(4.8.08)
 


Não mais escreverei.
Agora meu canto será o silêncio.
Se quiseres um poema meu olha meu rosto
Lá estarão todas as palavras que de mim esperas.
Se nada disseres
e apenas um sorriso irônico estampares,
terei  teu olhar como um novo verso,
e junto cantaremos a poesia da natureza.
(11.11.08)
 


como fossem fortes ventos
a água do rio
e o tempo
roubam momentos
(3.12.05)
 
 
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MUNDHOJE (2006)

 

Em memória de Itamar Assumpção, criador (dos grandes).

 

 

 

Trunca-se

(tempo, temporais)

a vanguarda.

A poesia

(fogo, fornalha)

se resguarda.

 

 

temo-te tempo temo-te tanto

tempo do pranto temo-te

temo-te vento do tempo voltário

temo-te muito movente tempo vário

 

 

 

 

 

mundhoje

 


1.
a vida arrastada pela correnteza dessa era semovente.  –    sem um sibilo

a confirmar:  os trilhos de  ferro   nunca mais se  encontrarão  para amar

 

2.

o mortal primata

toma o mato

extirpa o curupira

mata a mata

fazdeconta que respira

e expira

na sucata

 

3.

o mundo velho de guerra

acorda/dorme em guerra

o mundo do reclame:

um mitômano vexame

o novo mundo bytexpandido

cheio de bandidos

 

sobrou o onde

esteja o onde

onde o onde

se esconde

 

4.

o fuga-dor é ator

no mundhoje alterna dor

mais que fingidor gera dor

o monitor gera o fuga-dor

 

5.

só se fala uma fala

a fala mesma

a fala leite

a fala jeans

 

a fala TreVa trava a fala

 

a vanifala

afala as bocas

 

6.

o fast afasta a pausa

o fast afasta o pouso

o fast afasta o gosto

o fast afasta o aposto

 

7.

SOCIEDADE
SACIEDADE

 

 

11.03.2006

________________________________________________________________

ruidosos

 

 

moto passa por meus ouvidos

porta de entrada

à baila da emoção indesejada

 

a não calmaria desavisa que nada

mais é antes

nas ruas em que rodas triunfantes

freiam a vida – que enfeia

 

o olho de vidro do ruído ateu

ata meu sonho pigmeu

 

__________________________________________________________________

casmurros

 

eu poemo

tu poemas

ele poema

nós poemamos

vós poemais

mas

eles desveneram neologismos

 

10.04.2005

 

_____________________________________________________________

godot

 

para o Henrique França, em saudável contenda

 

não faço

não vou

no espaço

sou

palhaço

de deus

esperandoestou

9.2.2005

______________________________________________________________

quixote

 

o sonho

a vida

 

27.10.84

_______________________________________________________________

hora perdida

 

passo pela hora igual – não consigo desfiar a canalhice

da velhice da corrupção na minha poesia inimiga

que importa ao cidadão votado

senão que a consciência lhe diga

de manhã à noite

que ética é nunca ser derrotado

essa condição de que nunca há fadiga

nutrida pela pele do lobo pluridentado

protegido pela lei abissal do código superado

que nos enfronha nas mente como intriga

me torna fraco o acordo mutual

permito que essa ambição vocacional siga

enquanto entrelaçada numa rede nacional

minha cidadania me castiga

(mas será que não tenho nada melhor a fazer

do que versos sobre esse imperecível ritual?)

este Brasil é uma porta que me fecha

me desliga

 

02.02.2006

_______________________________________________________________

jesus cristo

 

do orto

ao horto

a porta da luz

o preter-natural porto

sem cruz

 

23.03.2005

________________________________________________________________

receita

 

recicle seu passado

faça dele

papel higiênico

 

9.12.2003

_________________________________________________________________

renovoo

 

após

o pós

o neo

urde

o retrós

02.07.2005

__________________________________________________________________

 

passos viscosos

 

resíduos morais

calcorreiam olhos de ratos

no chão de relvas desalentadas

chão de raízes chorosas

frutos pútridos de urnas inconscias

bocas desdentadas

manhãs que se sonhara radiantes alvoram castradas

o sorriso que gela

o coração em ardência

(instante que a dor sela)

ferida aberta que a notícia traz

repisar no que envergonha

vislumbrar somente vasa

excremento ou peçonha

estigma que consome

o viver sem lustre

vontade inexcedível

de não se querer sequer um nome

 

18.7.2005

______________________________________________________________

o trabalho

 

saber

que o sabor

da fome

que o braço

consome

é o que digna

ao homem

aço

a seu nome

 

03.03.2005

_______________________________________________________________

as meninas

 

”tem asas o desejo, a noite é um manto”

BOCAGE

 

 

na noite, manto

ocultas no canto

ninguém (nada) é santo

entre

tanto

 

20.10.2003

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via satélite 

 

o papa morre

a mídia corre

o povo de porre

se socorre

 

08.04.2005

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espelho

 

A íris refletida impudente:

– Nem Jekill nem Hide/

– Tu és Spencer Tracy!

27.06.2005

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ao tom zé

 

diz soante

à baiana

o viva à garoa

alardeia a aldeia

que arde e assoa

viva o vivo

víbora passeando entre pernas

da arte que voa

 

19.08.1995

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assumpção preto

 

que faça a massa

nascer o nego de novo

que faça a massa

não mais fritar o ovo

 

meio pedra

meio mar

me diga esse povo

quem ouviu ele cantar?

 

meio pedra

meio mar

qual o coletivo de azar?

 

meio pedra

meio mar

São Paulo a fabular


meio pedra

meio mar

não se esqueça de lembrar

 

16.02.2005

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orides fontela

 

aviso aos bandeirantes:

quero ela

não quero sua panela

encravada dentro

da alma de cimento

e ruídos sociais

exubera o branco no papel

 

na filosofia – o plantão

no verso – o reduto

debaixo da aristocracia

do viaduto

 

24.07.2006

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a retomada

 

na via da ida

a retomada amada

retoma o verso

remonta

a página o prefácio o número da página a letra

a retomada amada

frena o verso

do que nasceu antes

o dantes

o louco desta hora

o inventor dos amanhãs

a retomada amrespira e deixa respirar

e permite vez em quando (neste tempo)

que eu passe a língua

no dedo

e vire a página

 

19.1.2001

 

 

 

 

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 em busca do verso (2005)

 

a elegia datada

 

Em memória de Haroldo de Campos, inventor.

 

 

o homem desta manhã

 

nos olhos fundos

de cada um

no mundo do olho

de cada um

que pudera

 

no orvalho

que insiste

no triste

ovo que gera

mostra o mundo

da palavra mera

 

o homem atrás

do pano de fundo

no limoso poço

– cratera

 

olhar profundo

nos olhos tristes

e  corcundos

a dor jacta:

a dor da era

 

olhar santo

de tanto fundo

que na pele atraca

a funda espera

 

 

 

 

a fome e o planfeto

 

que se leve avante o levante ante

essa coisa de fome de quem não come

de quem não consome e se consome e some

ou fica no mundo ou fica vagabundo

ou se desfaz e não faz se não se faz

pois consegue que um todo negue

a importância e a ãnsia da bravata do lula de gravata

que o mercado acha que ata que o banco atarracha

e usa o riso e usa o siso a imprensa e prensa

a todos que querem que o levante

não se esfomeie irrelevante qual estrela cadente

falar nisso cadê o dente?

 

 

 

 

quem tem medo do homem nu?

 

para Wladimir Herzog

 

 

a foto do fato do homem tratado no porão como rato

na pele pela dita ditadura

que forja suicida e dor sem atadura

cala o gesto

a pena

a fala

e leva à vala

tritura

ama da dor intátil à torpe tortura

mas amador líder a delir o delírio ufano

tripudia a (s)chibata do insano

 

(o nó do peito: regar do fedor da dor do nada feito ao feitor)

 

 

 

revivescente

 

remoer a ferida

retirar a tala

o que atenua

o viver em vão

 

na vida sentida

se o sofrer cala

a poesia crua

arranca um não

 

no alto da vida

(aonde a dor se instala)

o clarão da lua

banha meu coração

 

 

 

 

a briga

 

na rua

a lua

              crua e nua

anuncia

um eclipse

na tua

psique

 

 

 

 

carcará

 

o canto do João

do Vale

vale tanto

que o tanto

é pouco

e um poco

santo

 

 

 

 

roberterasmo

 

”e que na minha idade

só a velocidade

anda junto a mim”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

encanto

 

lua

 

olhar

rua

luar

arder

nua

luaridade

 

 

 

 

mote na morte do haroldo

 

um mundo a cada atómo num segundo a cada mundo num átimo envelheço no mundo

que meço eletronizado cada passo no espaço strangeletizado o aço das cinzas de um laço

do recomeço

 

 

 

pohemeto sonoro para cantar em qualquer andamento

 

ao mago Hermeto Paschoal

 

o tudo toca

o nada canta

a toca toca

toca e canta

até pato toca

e o mato canta

 

 

 

 

a corrente

 

a falada pá de cal sobre o visionário

dos versos com jugo o calvário

ó grilhão ao abecedário

em troca do catecismo

ao dinheiro do egoísmo

ds conversão que o prazer acorrenta ovaciona

todo aquele que deveras teme um outro lado

que a vida tem

 

 

 

revigorar

 

re vidar     re tirar      re mover

tal e qual     o total      do mal

da fala    da sala     e do sal

 

 

 

 

quatro

 

a tarde a chuva a janela a vida

a vida da janela na chuva de tarde tarda a vida

na chuva da janela a janela da vida

na chuva de tarde a chuva da janela

da vida de tarde a vida é tarde

é janela a chuva é vida

a vida sopra a vida morre na tarde

 

(enquanto isso lá fora a chuva e a tarde

se enamoram por um canto de jardim

cá a janela introduz na vida

como um novo amor o olhar

por fim o olhar e o jardim

cumpliciam-se com a tristeza do ocaso)

 

 

 

 

o dízimo

 

a sacola passa

e ultrapassa

a massa

a seita cresce

e escurece

a messe

a plebe

submissa

purga omissa

a sacola cresce

e ultrapassa

a seita

e escurece

submissa a plebe

omissa

 

purga

a messe

e a missa

passa

 

 

poética 1

 

mate não tema

anátema

da gema

mate não

aparte

arremate

o lema

mate não

clame

chame o fonema

embate o tema

poemate

 

 

 

 

sexo

 

não pode evitar meu olhar no seu olhar

meu olhar nos seus olhos

meu olhar nas suas recusas falsas

não pode evitar que me olhe

e que meu olhar atinja por teu corpo inteiro

primeiro o que vê depois a gangrena em seus pudores

não pode permitir que meu olhar vá embora

mas hesita teu olhar para o nada

um jornal

um poema

um não-objeto

nessa eternidade que abandona em todo seu âmago em todas suas febres

em toda sua insanidade

não pode você deixar de me amar

mas você não pode me amar

o quanto seus olhos decretam

somente o olhar amalgama suas dores

 

 

 

em busca do verso

 

prenuncie a letra pronuncie o nome

a palavra profetize

arrume a rima reme

em rumo da não meta

a metáfora fora de uma cor

rente à corrente da vaga

que surge a grave que supre

a suprema forma de canto

qual santo acalanto

poetize

sempre

poetize

quando

 

 

 

 

poética 2

 

me caço

sem laço

não me acho

nem em cima

nem na rima

nem em facho

me calo

no embalo

de quem fugiu

– vassalo

e dormiu

quando o sol surgiu

no gargalo

e ruiu

num pequeno

estalo

 

 

 

 

a eterna paisagem

 

o país dos penitentes dos sem-dentes

dos sorridentes da panela vazia

da vã alforria da lenta agonia

da favela trincheira

do eira nem beira

da xepa da feira

o poder que assola

a falta de escola

do governo esmola

que se travestem de humanos

mas que cada um é pro seu

que se atura como nomenkletura

tudo mesmo os eternos com seus ternos

que ganham reganham

dos que estão em versos lá em cima

logo acima que ensina que a flor fina na surdina

é pedra e  medra do crivo de que  tem o arquivo

que foge da raia dos ossos do araguaia

da sonhadora povoador terra do se terra

que berra que morro mas cerra ao ver s novela

que encerra no peito no leito da pátria varonil

juvenil do céu anil da puta que o pariu