ESSÊNCIAS DA NOITE 2008


Mas esquecemos. O dia perdoa.”

 DRUMMOND

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NOITE PASSIVA

 

A noite que não é negra
é noite sem entrega,
sem presságio de noite.
Noite sem refrega.

 

A noite que se nega
é a noite de meio termo,
sem tango, que desmaia;
do que não é enfermo.

 

A noite que se regenera
é noite que não se ouve,
silêncio que não grita.
Grito de garganta fria.

 

A noite que anseia o dia
é a noite que escapa,
círios que se apagam.
Bola na caçapa.

 

A noite sem defeito
é noite com trégua.
Algo que não se mira,
noite do não feito,

 

noite sem escravo,
sem soluço, sem medo.
Que se cala e não crava
unhas no quando degredo.

 

Noite que termina,
que fisga espaços.
Nesga pantomima.
Noite aos pedaços.

 

 

 

 

VERSOS DA NOITE II

 

Frívolo cantador de suores distantes,
desvendo o que refuga num poema arrepanhado.

Ante a flor de pétalas dissonantes
se cismo, retiro do pulsar um abismo
de estupor da angústia ávida pelo fado.

Um salto em torno da vaga por mais alto a paliçada

da trajetória aflita, cumpro e excluo da madrugada
o calor de que não sei se desdita
e encaro na natureza da dor do nada
que dentro de mim se agita.

É quando um verso que não morre alteia

o que está imerso, e na cisão da falsa teia
salta e à pena ensina:

tudo isso que escorre é o viver da noite finita,

que me abrange como um lago que socorre
e ao se enfeixar com o alvorecer, se jardina.

Mas como espectro de mera fita, declina.

 

 

 

 

ESTRELA INCÓGNITA 

 

A insegurança irrompe-me
em qualquer lugar
em qualquer segundo.

Mas uma estrela,
de tutela indecifrável,

irradia o sim fecundo.

Uma espécie de aragem
de sorriso aberto.

Mãos que ameigam e me trazem
de volta o mundo.

 

 

 

 

NOITE TRANSFIGURADA

 

(Visitando Shoemberg)

 

Vários tons
de cores nota e ânimos
vão somem voam vêm sobressaem do limbo.
Então tecem

 

vários tons de noite.
Noite adentro de vozes
desarmoniosas
em perfeita harmonia de vários humores
pecam afligem sangria da paz
quiçá flores.

 

Vários tons de fixas regras
irão tornar o único desejo reflexos
apanhas
entregas negras de

 

vários tons que colhem do século tecidas curas.
Feridas puras.
Gritos no pedestal do seco abissal.
Ciclo onidirecional.


Banza fúsil em ternuras.

 

 

 

 

MALUCO BELEZA

 

Raul é tão eterno
quanto seu nome
ao contrário.

 

 

 

 

NOITE SEM FIM

 

cruzes em pé
espada flamejante
na beira – na costa
sono delirante


criança amendrontada
fixas ondas – cortes
rápidos – fixas ondas
viagem interior
vaga atormentada


tapas de cima
de lado – do outro
cálice de ouro
cheio de incenso
um coro, besouro


imagem cimentada
cruzes em pé
espada flamejante
no dia aziago
nunca terminante


nunca fica o nada
peça de couro
vira chicote
na plena noitada
cálice de ouro


cheio de vida
vida sem mote
vaga chicoteada


declive no quando
confete e serpentina
mesmo saudade
mesmo sem retina


declive tesouro
descanso do cálice
de tapado de outro
sopro que anima


cruzes em pé
espada e dardo
chega e sai
nunca que cai
no quase soluço
madrugada se esvai

 

 

 

 

FÉDON

 

noite escura
noite clara
a morte procura
o que a sabedoria aclara

 

noite escura
noite clara
o plenilúnio perdura
o triste enluara

 

noite escura
noite clara
a espera pelo sol tortura
a eternidade ampara

 

noite escura
noite clara
o noûs abjura
o veneno da tara

 

de uma idade obscura
mediana, insensata
que ainda não se mostrara

 

 

 

SOLIPSISTA

 

A porta aberta, cigarro aceso.

 Dentro da noite de dentro da sala

de dentro do escuro, ruídos túrbidos
atiram pedras ao pensamento.

 Sem clarão de lua a penetrar no espaço
do homem que vira bicho se não dorme;
que vira lixo se não se domina,
aguarda-se o que virá. Sem saber se virá.
Sem perceber se o remirá.

 

Quanto mais a noite adentra, mais
a impossibilidade, adventícia e nêmesis,
cresce, para nunca mais desgrudar.

 

 

 

 

CHORO NOTURNO

 

”Eis porque minha alma ainda é impura.”

MARIO DE ANDRADE

 

Longe de ti.

Perto de ti não respiro. Sofro

pela inépcia da noite e teu pêndulo

que chamas amor – noite vem, noite não.

Pela lógica que é minha e que passas

remota. O não entendimento

é quase gráfico, subalterno

a todos os argumentos. A prisão

ao cigarro em nada é free.

Bebo o prazer de ter dor e a fumaça.

 

 

 

 

NOITE DE NELSON FREIRE

 

O piano angelita oscila
entre tangível e eldorado.
A mais sensível gota
de existência nos olhos
do artista. Pálpebras que
remetem avisos. Ao íntimo
desconhecido, via mãos
grávidas da entrega.
Ao maestro: cada segundo
deve repelir o estatismo de viver.

Orbitam as retinas em meio
à emoção compartilhada
com centenas de outros olhos
que esteiam os ouvidos da noite.

Noite de música vista, descortinada.
Noite de cena final, lua
da Casa de areia.
Noite de condão, diluvial.
Noite e olhos. Fixos, marejados.

 

 

 

 

A ESQUINA

Ao amigo Mario Pinheiro de Carvalho

 

A esquina era aquela;
sonho e esquisitice de risos sem futuro.
Era da cidade, mas a esquina era dela.
E  nos possuía nas noites em que tentávamos o fardo de viver
descobrindo sustos, despavoridas inquietações,
que se agarravam na essência da fúria probabilista.
A esquina era bela.
Onde sentávamos com o cigarro sem fósforos,
esperando o fogo da juventude aclamar mais um dardo atingido.
A esquina era sequela
aos tempos e vidas incontáveis, de vidas de passagens,
passeios e tristes fracassos e buscas por tentar entender o pão do dia.
Mas a esquina não era ela.
Era a que abrigava conversas sentadas,
madrugadas de um espinho camaleão,
de jogos interiores de cada um que recusava o passo,
antes o estilhaço de se ancorar no insabido.
A esquina era viela.
E por mais espaço, era própria de um pequeno mundo
de pequenos mundos, esconderijos de todas as sensações
em que éramos das cavernas, das inquisições,
do encarte positivista dos pais,
da dormência obliterada de uma fálica nação
sempre a servir-nos uma espera fria,
que, mágica, transformava,
em momentos de esquiva, a esquina em cela.
No meio-fio, rutilantes entraves insinuavam ambições
do que era o próximo segundo,
do que nasceria no amanhã,
no que fiaria nas nossas mentes,
nos livros, nas repetidas conversas, nos filmes,
na canção gratificante de um tempo rico de canções,
maiores que o próprio tempo,
que não deixaram a esquina ser mazela.
A esquina era a cancela
para todos os lados do vir a ser
ou para o alto da escada sem degrau ou rampa
para o acesso de tantos sonhos que,
só ao voar, chegaríamos em tempo de triturá-los
e experimentar o sabor de tudo que a vida,
hábil e dadaísta, proveria a todos enquanto peça
da humanidade que respira como alvorada onde está o tudo:
no meio da esquina paralela.
Nisso, íamos nascendo.
Enquanto o barro secava-se não ao sol,
mas ao cio da lua,
a esquina era a costela.

 

 

 

 

NOITE ALUCINANTE

 

Potros ao vento.

Signos e sonhos,

Portos e caudas;

suores medonhos

 

Sono de pedra.

Alma ruprestre.

Jaula da noite

sem viga mestre.

 

Luar desbotado,

palavra não lida.

Boca fora do tom

com data vencida.

 

Beijo estranho

na noite doída.

Alçapão que dá dica.

Vale sem saída.

 

Inferno, pária

morsa e aluvião.

Deus inafetivo.

Filho de Abrahão.

 

Amnésia e partida,

mictório de botequim.

O cheiro do riso,

o prazer do fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MUNDHOJE 2006

 

 

 

Em memória de Itamar Assumpção, criador.

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trunca-se

(tempo, temporais)

a vanguarda

 

a poesia

(fogo, fornalha)

se resguarda

 

tempo, temo-te

temo-te tanto

tempo de pranto

temo-te

temo-te, vento

do tempo voltário

temo-te muito

movente

tempo vário

 

mundhoje

 


1.
a vida arrastada pela correnteza dessa era semovente.  –    sem um sibilo

a confirmar:  os trilhos de  ferro   nunca mais se  encontrarão  para amar

 

2.

o mortal primata

toma o mato

extirpa o curupira

mata a mata

fazdeconta que respira

e expira

na sucata

 

3.

o mundo velho de guerra

acorda/dorme em guerra

o mundo do reclame:

um mitômano vexame

o novo mundo bytexpandido

cheio de bandidos

 

sobrou o onde

esteja o onde

onde o onde

se esconde

 

4.

o fuga-dor é ator

no mundhoje alterna dor

mais que fingidor gera dor

o monitor gera o fuga-dor

 

5.

só se fala uma fala

a fala mesma

a fala leite

a fala jeans

 

a fala TreVa trava a fala

 

a vanifala

afala as bocas

 

6.

o fast afasta a pausa

o fast afasta o pouso

o fast afasta o gosto

o fast afasta o aposto

 

7.

SOCIEDADE
SACIEDADE

 

 

11.03.2006

________________________________________________________________

ruidosos

 

 

moto passa por meus ouvidos

porta de entrada

à baila da emoção indesejada

 

a não calmaria desavisa que nada

mais é antes

nas ruas em que rodas triunfantes

freiam a vida – que enfeia

 

o olho de vidro do ruído ateu

ata meu sonho pigmeu

 

__________________________________________________________________

casmurros

 

eu poemo

tu poemas

ele poema

nós poemamos

vós poemais

mas

eles desveneram neologismos

 

10.04.2005

 

_____________________________________________________________

godot

 

para o Henrique França, em saudável contenda

 

não faço

não vou

no espaço

sou

palhaço

de deus

esperandoestou

9.2.2005

______________________________________________________________

quixote

 

o sonho

a vida

 

27.10.84

_______________________________________________________________

hora perdida

 

passo pela hora igual – não consigo desfiar a canalhice

da velhice da corrupção na minha poesia inimiga

que importa ao cidadão votado

senão que a consciência lhe diga

de manhã à noite

que ética é nunca ser derrotado

essa condição de que nunca há fadiga

nutrida pela pele do lobo pluridentado

protegido pela lei abissal do código superado

que nos enfronha nas mente como intriga

me torna fraco o acordo mutual

permito que essa ambição vocacional siga

enquanto entrelaçada numa rede nacional

minha cidadania me castiga

(mas será que não tenho nada melhor a fazer

do que versos sobre esse imperecível ritual?)

este Brasil é uma porta que me fecha

me desliga

 

02.02.2006

_______________________________________________________________

jesus cristo

 

do orto

ao horto

a porta da luz

o preter-natural porto

sem cruz

 

23.03.2005

________________________________________________________________

receita

 

recicle seu passado

faça dele

papel higiênico

 

9.12.2003

_________________________________________________________________

renovoo

 

após

o pós

o neo

urde

o retrós

02.07.2005

__________________________________________________________________

 

passos viscosos

 

resíduos morais

calcorreiam olhos de ratos

no chão de relvas desalentadas

chão de raízes chorosas

frutos pútridos de urnas inconscias

bocas desdentadas

manhãs que se sonhara radiantes alvoram castradas

o sorriso que gela

o coração em ardência

(instante que a dor sela)

ferida aberta que a notícia traz

repisar no que envergonha

vislumbrar somente vasa

excremento ou peçonha

estigma que consome

o viver sem lustre

vontade inexcedível

de não se querer sequer um nome

 

18.7.2005

______________________________________________________________

o trabalho

 

saber

que o sabor

da fome

que o braço

consome

é o que digna

ao homem

aço

a seu nome

 

03.03.2005

_______________________________________________________________

as meninas

 

”tem asas o desejo, a noite é um manto”

BOCAGE

 

 

na noite, manto

ocultas no canto

ninguém (nada) é santo

entre

tanto

 

20.10.2003

_________________________________________________________________

via satélite 

 

o papa morre

a mídia corre

o povo de porre

se socorre

 

08.04.2005

__________________________________________________________________

espelho

 

A íris refletida impudente:

– Nem Jekill nem Hide/

– Tu és Spencer Tracy!

27.06.2005

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ao tom zé

 

diz soante

à baiana

o viva à garoa

alardeia a aldeia

que arde e assoa

viva o vivo

víbora passeando entre pernas

da arte que voa

 

19.08.1995

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assumpção preto

 

que faça a massa

nascer o nego de novo

que faça a massa

não mais fritar o ovo

 

meio pedra

meio mar

me diga esse povo

quem ouviu ele cantar?

 

meio pedra

meio mar

qual o coletivo de azar?

 

meio pedra

meio mar

São Paulo a fabular


meio pedra

meio mar

não se esqueça de lembrar

 

16.02.2005

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orides fontela

 

aviso aos bandeirantes:

quero ela

não quero sua panela

encravada dentro

da alma de cimento

e ruídos sociais

exubera o branco no papel

 

na filosofia – o plantão

no verso – o reduto

debaixo da aristocracia

do viaduto

 

24.07.2006

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a retomada

 

na via da ida

a retomada amada

retoma o verso

remonta

a página o prefácio o número da página a letra

a retomada amada

frena o verso

do que nasceu antes

o dantes

o louco desta hora

o inventor dos amanhãs

a retomada amrespira e deixa respirar

e permite vez em quando (neste tempo)

que eu passe a língua

no dedo

e vire a página

 

19.1.2001

 

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TREM DAS PALAVRAS

. Dedicado à memória de Apparício Lara Filho, amigo e mentor.

.  Capa de André Costa

. Prefácio de Jorge Henrique Costa

. Diagramação de Carolina Godinho Retondo


. Agradecimentos efusivos a Fatu Antunes e Mário Tadeu Ricci, amigos que possibilitaram este livro.

Nesta antologia estão contidos poemas dos livros:

Mundhoje, 2005

Amororos, 2007

O quanto deságua

e

Essências da noite, 2008

e outros poemas de 2009 e 2010,

dispostos em cronologia inversa,

verdadeiro trajeto deste trem, que a Poesia,

sombra galhofeira, insiste em chamar

de viagem pelas perdas e pelos danos.

A.R.

PREFÁCIO

NO TREM DAS PALAVRAS

Numa sucessão de ritmos, tons e experimentações estilísticas que revelam o equilíbrio poético, Alfredo Rossetti expõe neste TREM DAS PALAVRAS, toda sua capacidade criativa.

O livro reúne poemas de várias épocas, demonstrando que o autor vem se dedicando a uma discreta pesquisa poética, como um estudioso que investiga sem alardes, sob a égide da imaginação lúdica.
Alfredo Rossetti trabalha como o químico que experimenta fórmulas para atingir seu fim, a receita certa, a palavra sã. Explorando um variado leque de temas que vão da palavra amorosa à reflexão ideológica, até as inquirições ontológicas, como nesta passagem esclarecedora:

(No sempre perco
meu documento.
A minha terra
é esse momento)
O poeta deve sempre procurar reproduzir o mundo, o tempo, as sensações de uma maneira que ilumine o leitor para fatos, à partida corriqueiros, mas que permitem reinventar as coisas perante as pessoas. No poema O MOVIMENTO DA ARANHA, Alfredo Rossetti condensa a imagem da solidão, num dos textos mais conseguidos do livro:

O bar sem afagos.
Sentados à mesa, os três.
Um homem sem olhar,
uma canção.
e revolta, tácita, soberana dos dois,
a solidão.
Tal capacidade de capturar um momento e sintetizá-lo em palavras é uma das formas que temos para admirar um poeta, de criar um medidor interior capaz de mensurar a tensão que se reproduz em nós após a leitura de um verso:

E a solidão obedece
seu santificado de deserto
O próprio poeta tem que se conscientizar do seu estar no mundo, dos seus limites e de sua pequenez:

Me transformo, me moldo.
Neste mundo de Deus
me afiguro, me adpato.
Nunca paro, e até
o próximo segundo
me reforço, estou apto.
Alfredo Rossetti consegue atingir momento de real poeticidade, em que a sua condição reflexiva – inserto em todo verdadeiro poeta – produz passagens que poderiam ser os punti luminosi de sua poética:

Somos uma eterna madrugada,
quando falamos à sós.
Momento em que buscamos
a verdadeira estrada:
a que nos leva para dentro de nós.
A busca do sentido da vida é percebida através da compreensão metafísica. O poeta é aquele que indaga tudo o que envolver o homem, e daí tira sua parcela de beleza:

O que foi antes passa a ainda é.
Mas se o poeta tem plena consciência de seu estar no mundo, também está atento às mudanças ocorridas ao longo do tempo. É como este espectador lúcido que Alfredo Rossetti dá um salto processual indo da reflexão metafísica, para a reflexão ideológica, interrogando-se sobre as derrocadas das ideologias, os desencantos políticos. Neste sentido, o poeta mostra seu passaporte do homem interessado no destino humano:

A foice foi-se.
Virou ponto cego.
Da foice à colhedeira
ao martelo sem prego.
A sua interrogação mescla desencanto com humor sem ser tendenciosa, pelo contrário, é enviesada pelo humor, seguindo uma tradição literária brasileira desde os modernistas:

Enquanto o capitalismo
enche o mundo de lixo
e a incompetência comunista
o homem de ilusão,
a poesia me enche de preguiça
sem qualquer pudor
ou busca pela razão.
Em TREM DAS PALAVRAS, Alfredo Rossetti inaugura uma linha poética que faz muitas paradas por diversos gêneros poéticos – poesia modernista, à maneira de Oswald de Andrade, poesia marginal, concreta, etc. –
Mas a meu ver, é sobretudo na percepção do mundo que o poeta captura os fatos corriqueiros que se transformam em instâncias expressivas, e onde gravitam os momentos mais fortes do livro. O autor funda aí uma voz para si mesmo, instilando uma expressividade assinalável. Exemplo emblemático e característica primordial deste poema, lê-se no poema O VELHO G&E:

O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda a sua condição humana,
quando a manhã o torna poesia.
Sua linguagem é sucinta, transparente, surpreendente.

E todos devem receber com prazer o convite para essa viagem que o poeta nos convida, com o poder de sua linguagem poética.


Jorge Henrique Bastos

POEMAS 2009/2010

 
O  ESTRANHO

Dentro de mim
um alguém me tira do sério.
 
Um alguém-mistério
me traz o oco.
 
Um alguém-sufoco
não me repele.
 
Um alguém à flor da pele
não me escuta.
 
Um alguém-cicuta,
coro do instinto.
 
Um alguém que sinto
que não me zela e cora.
 
Dentro de mim,
como um alguém
de fora.

O LIVRO DA NET

“os homens criam as ferramentas;
as ferramentas recriam os homens”
M.MCLUHAN
“Este mundo (pressinto)
vai se tornar terrivelmente complicado.
DRUMMOND
Leio um livro adensado em Kbites,
um livro que nunca se desarranja.
Não fica sobre a mesa,
não fica sob a cama,
nem esparso entorno.
Livro lá da terra que esbanja
o não-retorno.
Livro que não se usa marcador:
usa a marca do seu tempo.

Livro que se usa sem coito.
Um livro filho do depois
que a humanidade desapareceu,
numa nuvem espetacular,
em maio de 68.

O MARCADOR DE LIVROS

Coloco em meio às páginas de Drummond,
Maiakóvski.
Bem em cima do Áporo
no encontro poeirento da entomologia.

Desconforto que passa
ao largo das estantes tediosas.

Entre versos de travessias angustiantes,
o olho.

O olho que não deixou-se matar.

Amanhã ele (o olho)
iluminará meu caminho
de volta ao infinito bosque da poesia.

MOTO-PERPÉTUO

“Meu Pai trabalha sempre
e eu também trabalho”
JOÃO 5-17
 
Me transformo, me moldo.
Neste mundo de Deus me afiguro,
me adapto.
Nunca paro, e até o próximo
segundo me refaço, estou apto.
 
Se a obra do filho e pai é incessante 
sou desta força filho do mundo
que se replica:o tudo ou o nada
mutante.
 
Ontem à noite era um espinho ou inhame;
engrenei-me no universo como um gene
que aprende na magnitude deste came.
 
Não busco entendimento 
nem oro  em contestação, 
mas curioso e poeta, queria saber
o que se evoluiu a ser meu coração.
 
 
 
(de uma das milhares conversas saudáveis com o Sr. Lara)
 
2009