O GOSTO QUE SE DISCUTE

O homem olha
o Universo:
sente-se pequeno.

O homem ouve
um pio na mata:
sente-se pequeno.

O homem sentado
na pedra da praia:
sente-se pequeno.

O homem diante do tempo
que os livros contam:
sente-se pequeno.

Mas o homem
com a escolha nas mãos,
não pode sequer
pensar-se pequeno.

O VERSO

“Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiarem na noite, as palavras.”
DRUMMOND
Plantas ao pé da tristeza indócil,
o desequilíbrio entre a face e a outra,
o indício.

Jogas ao precipício as flores do susto
que a vida remete ao que ainda vem,
em surto.

A pele que rasga, no papel, o coração,
mais que processo, adaga e folia,
comoção.

Um beijo de mote. Um soluço léxico.
Um verso na noite, que pulsa, rebate
lítico.

Plantas, mas não colho dentro da hora vernal,
posto ser indelével,  Segunda Vinda,
vergel.

Faço desta palavra pingos de chuva,
na busca zelosa e infatigável
da chave.

VÍCIO DAS CINZAS

“Como em turvas águas de enchente,
Me sinto  a meio submergido
Entre destroços do presente”
MANUEL BANDEIRA
Pontilho um sorriso de entardecer
no filamento de uma lembrança
que agoura a chamuscar o momento.
Acontecimento que se debate.
Ponte arcada soçobrando o tempo

a estreitar arranjos impossíveis,
a vasculhar sôfregas tentativas
de renascimento, parcos consertos,
bandagens no feito, tolos reparos.
O que foi antes passa a ainda é:

perfume de loja, espinho fresco
de ponta acerada, arraigada.
Flama no segundo dorido, sem fim
que se espera, acalora ou alivia
posto ser tempo que não se divide.

Brota em em mim o desejo da cortina
eterna a exaurir o vício das cinzas.

DEVASTAÇÃO

Penso na região do Araguaia:
lona de ringue sem beijo
civilização maia
impotência sobre o desejo
rastros apagados
veneno de tocaia
terminal ameaça
mastros quebrados
livro do século XVIII com traça
edênica querência abrasada.
Amanhá pensarei sobre o nada.

NOSSO AMOR

Queres que sejas dor?
Então vem lenta.
E vem assim,
como quem tenta.

Se puderes,
traz sal e pimenta;
a lua deixa na lua
a água que fique benta.

Se vieres, anda como gato,
procissão, folhagem,
sem unhas, sem o suor
da última viagem.

Se queres, sê a dor.
Mas não a de ferir:
a dor raiz
a  dor do só dar.

A dor do jeito que
a dor nem gosta.
A dor que intervala,
nem sempre disposta.

A dor, se queres ser,
a crua ao relento.
Se queres cinza,
pinta a aparente

dor da gente,
a dor cavada,
mina de prata.
Escora, semente.

4.9.2009

ENCONTRO

Quero adormecer neste abraço.
Quentar a vida neste toque.
Revoar como pipa multicor.
Segurar essa forma no espaço
para outro momento,
outro verso, outro eclipse, noutra dor.
Invocar o sabor neste entrelaço
e ungir o que virá, no cumprir
do arquétipo que adeja,
e ver num estilhaço
essa placidez sertaneja
desflorescer na volta
a um tempo de cansaço.

CONTO NUM POEMA

Na sétima cornija,
num dia de garoa como todos os outros,
encontraram-se na ladeira do Verso Manco,
sobriamente vestidos, timidamente viventes,
Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

O Carlos, ao ver o outro possuído de Mestre Caieiro,
quis ser mineiramente gentil, dizendo logo um verso:

“sou um homem dissolvido na natureza,
estou florescendo em todos os ipês”   (1)

Mas o outro, com vontades de vicejar
em outros riachos,
de forma deseducada,
foi embora num estremecer corpóreo.

E fico o Fernando, que após sacudidelas,
ajeitou os óculos
e pouco solene murmurou ao colega de grandeza:

” – Vou ao Abel”     (2)

(1)  Versos do poema Tempo de Ipê, de Drummond.
(2) Frase dita por Pessoa, no escritório em que trabalhava, várias vezes ao dia, quando saia para beber um trago de aguardente, no comércio de Abel Pereira da Fonseca.

O VELHO G&E

O ventilador da biblioteca traça,
em pêndulo eólico,
um mapa invisível. Distribui
seu aceno simbiótico entre livros. Emite
um grito que o vento abafa,
enquanto uma flanela encalmada
acaricia sua aranha ferrenha.
Gotas de um óleo balsâmico o revigora,
mas abisma a poeira amiga, que o afaga
nas noites sem sopro, de silêncio
consorte. E assim, efígie do tempo,
aguarda sua condição humana
quando a manhã o torna poesia.

4.7.2008