ESTADO DE ALMA

a fome comeu

as abstrações fragmentárias do S. Dedalus

e o orgasmo da Sra. Bloom


a fome tragou

o café com pão do Manuel

e as orelhas do cavalo de Hipólita


a fome corroeu

os sete instrumentos de Praga

e o terno preto do Sr. K


a fome defraudou

a imodéstia dos contos drummondianos

e a eterna farsa da D. Inês


a fome destruiu

a crença da reunião

dos universos acima, um dia


a fome fomentou

fomeu

03.10.2001

OLHARES MORTOS

Ontem no velório rostos do passado

choravam a morte.

Eu chorava a vida.

Eu chorava pelos rostos cindidos

e ações não governadas.

Eu chorava pelos olhares que me viam

e não me viam;

eu chorava pelo que viam.


De um lado a morte incontestável

como a fé,

de outro o do rosto do passado que sempre viam.


Ontem no velório percebi que morremos várias vezes

e senti que chorava uma delas.

25.10.2001

A ARANHA E A CIGARRA

Deitado, viu a aranha

E

P

E

N

D

U

R

A

D

A


Pensou poeticamente

não se mexeu,

(não se afortune à vida, ó músculos!)

somente os olhos

orbitais curiosos.

A aranha sobe

mas desce análoga:

grandes subidas, descidas

bruscas, constantemente previstas.


Ao largo, a formiga.

E a tarde tomou conta

escurecendo a vida

e o quarto.

Passara todo esse tempo pensando?


A aranha já se fora. A cigarra

na teia.


Voltar a todos.

Ligar a televisão.

Morrer mais um pouco.


21.08.2001

A TRINDADE

a face que estou hoje

a face minha

a face que enternecerei

a face tua

a face que estarrecerei

a face que ficou


a face que busca o suor

a que queres

a face que busca o amor

a que vês

a face que busca o sexo

a que nem sonhas


a face que estorvo

a que sentes

a face que encanto

a que almejas

a face do nojo

a que ignoras


14.01.2001