A chuva daquela tarde caíra mensal. Foi que entendi do que a moça do tempo disse na TV. Uma grande jarra despejando água num copo. Não me furtei à imagem. O pensamento se evade com a precisão de um raio sobre um mapa mundi colocado na mesa de nossos olhos fechados. O mestre Lupicínio matou de vez quaisquer tentativas de elaborar versos neste sentido com o genial “o pensamento parece uma coisa à-toa mas como é que a gente voa…” E nessa profusão que a mente provoca, olhando as águas de março (o Tom, nem diga) ancoro em recordações da primeira enchente que pude presenciar de perto. Assisti todas etapas, do temporal ao caos que as águas provocaram no jardim da cidade, situado na praça central, com a queda de árvores, destruição dos bancos de madeiras,e a fonte luminosa, destruída.

Ainda carrego os rostos dos engraxates, desolados por perderem seu espaço de trabalho. Bem no meio da praça, atravessando a rua, um cinema com todos seus cartazes estragados, e a Fulaninha, loja de bilhetes de loteria com seus vidros quebrados. O vento fora de uma força jamais presenciada. Um velho cão de todos me olhava triste. Ele sentira a natureza mais que todos nós, por ser todo percepção, sem que tivesse necessidade de procurar razão para tudo aquilo. Uma noite digna de São Bartolomeu (exagero do cronista). E a manhã já se remoçara límpida, com seus raios de Sol procurando formar um arco-íris. O rio já se acalmara, mas ainda mantinha perigosa velocidade em seu correr. O mundo ia se ajustando, precisando de uma limpeza. Foi o que pensei, depois que entre muitas falas ouvidas, a do Ziqui sobrepôs: – “A água é castiguenta, ela quando cai, é pra limpar as coisas ruins que nóis fazemos. E se cai forte e ventando assim, é porque a coisa tava feia, acumulada nos pecados! É muito chifrudo nessa cidade! Brinca com Deus, brinca!” E ninguém apontou ser uma frase machista. Apenas riram. Nas chuvas daquele tempo era assim mesmo.

24.3.19

CRÔNICA DO DIA

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