Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19

CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

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