p/ Konstantinos Kaváfis, em memória.


Atende tua porta ao chegarem

os desejos; inclina para o lado

do corpo que foi atingido.

Não esqueças de acolher bem

ao que pode ser tua Renascença.

Espalha ramos no teu tapete

onde teus sentidos pisam.

Sê o humano da superfície

da pele que te retrata. Não

represes tuas fantasias

por nenhum pensamento

que te doa; solta comportas

em todos seus poros, risos,

e em lembranças marcadas,

como a dança dos colmos

dos trigais que um dia viste.

Não te resguardes da canção

primeira que veio a ti pela manhã

e que te envolveu como hera

e te acompanhou  até o ocaso,

que julgavas exausto, mas que

ao se declinar, retratou no céu

um sorriso lascivo e trouxe ao olhar

da imaginação uma rosa tímida.

E quando o sono que te aguarda,

ruborescer ante teu dia completo,

entrega-te como criança: abre

seus braços e corre ao colo da

primavera. Nesta hora, teu corpo

precisará de descanso, diferente

da tua alma que, assim  que iniciares

o teu fingimento de morte, te velará.

18.6.19

DIA DE VIDA
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