Mas esquecemos. O dia perdoa.”

 DRUMMOND

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NOITE PASSIVA

 

A noite que não é negra
é noite sem entrega,
sem presságio de noite.
Noite sem refrega.

 

A noite que se nega
é a noite de meio termo,
sem tango, que desmaia;
do que não é enfermo.

 

A noite que se regenera
é noite que não se ouve,
silêncio que não grita.
Grito de garganta fria.

 

A noite que anseia o dia
é a noite que escapa,
círios que se apagam.
Bola na caçapa.

 

A noite sem defeito
é noite com trégua.
Algo que não se mira,
noite do não feito,

 

noite sem escravo,
sem soluço, sem medo.
Que se cala e não crava
unhas no quando degredo.

 

Noite que termina,
que fisga espaços.
Nesga pantomima.
Noite aos pedaços.

 

 

 

 

VERSOS DA NOITE II

 

Frívolo cantador de suores distantes,
desvendo o que refuga num poema arrepanhado.

Ante a flor de pétalas dissonantes
se cismo, retiro do pulsar um abismo
de estupor da angústia ávida pelo fado.

Um salto em torno da vaga por mais alto a paliçada

da trajetória aflita, cumpro e excluo da madrugada
o calor de que não sei se desdita
e encaro na natureza da dor do nada
que dentro de mim se agita.

É quando um verso que não morre alteia

o que está imerso, e na cisão da falsa teia
salta e à pena ensina:

tudo isso que escorre é o viver da noite finita,

que me abrange como um lago que socorre
e ao se enfeixar com o alvorecer, se jardina.

Mas como espectro de mera fita, declina.

 

 

 

 

ESTRELA INCÓGNITA 

 

A insegurança irrompe-me
em qualquer lugar
em qualquer segundo.

Mas uma estrela,
de tutela indecifrável,

irradia o sim fecundo.

Uma espécie de aragem
de sorriso aberto.

Mãos que ameigam e me trazem
de volta o mundo.

 

 

 

 

NOITE TRANSFIGURADA

 

(Visitando Shoemberg)

 

Vários tons
de cores nota e ânimos
vão somem voam vêm sobressaem do limbo.
Então tecem

 

vários tons de noite.
Noite adentro de vozes
desarmoniosas
em perfeita harmonia de vários humores
pecam afligem sangria da paz
quiçá flores.

 

Vários tons de fixas regras
irão tornar o único desejo reflexos
apanhas
entregas negras de

 

vários tons que colhem do século tecidas curas.
Feridas puras.
Gritos no pedestal do seco abissal.
Ciclo onidirecional.


Banza fúsil em ternuras.

 

 

 

 

MALUCO BELEZA

 

Raul é tão eterno
quanto seu nome
ao contrário.

 

 

 

 

NOITE SEM FIM

 

cruzes em pé
espada flamejante
na beira – na costa
sono delirante


criança amendrontada
fixas ondas – cortes
rápidos – fixas ondas
viagem interior
vaga atormentada


tapas de cima
de lado – do outro
cálice de ouro
cheio de incenso
um coro, besouro


imagem cimentada
cruzes em pé
espada flamejante
no dia aziago
nunca terminante


nunca fica o nada
peça de couro
vira chicote
na plena noitada
cálice de ouro


cheio de vida
vida sem mote
vaga chicoteada


declive no quando
confete e serpentina
mesmo saudade
mesmo sem retina


declive tesouro
descanso do cálice
de tapado de outro
sopro que anima


cruzes em pé
espada e dardo
chega e sai
nunca que cai
no quase soluço
madrugada se esvai

 

 

 

 

FÉDON

 

noite escura
noite clara
a morte procura
o que a sabedoria aclara

 

noite escura
noite clara
o plenilúnio perdura
o triste enluara

 

noite escura
noite clara
a espera pelo sol tortura
a eternidade ampara

 

noite escura
noite clara
o noûs abjura
o veneno da tara

 

de uma idade obscura
mediana, insensata
que ainda não se mostrara

 

 

 

SOLIPSISTA

 

A porta aberta, cigarro aceso.

 Dentro da noite de dentro da sala

de dentro do escuro, ruídos túrbidos
atiram pedras ao pensamento.

 Sem clarão de lua a penetrar no espaço
do homem que vira bicho se não dorme;
que vira lixo se não se domina,
aguarda-se o que virá. Sem saber se virá.
Sem perceber se o remirá.

 

Quanto mais a noite adentra, mais
a impossibilidade, adventícia e nêmesis,
cresce, para nunca mais desgrudar.

 

 

 

 

CHORO NOTURNO

 

”Eis porque minha alma ainda é impura.”

MARIO DE ANDRADE

 

Longe de ti.

Perto de ti não respiro. Sofro

pela inépcia da noite e teu pêndulo

que chamas amor – noite vem, noite não.

Pela lógica que é minha e que passas

remota. O não entendimento

é quase gráfico, subalterno

a todos os argumentos. A prisão

ao cigarro em nada é free.

Bebo o prazer de ter dor e a fumaça.

 

 

 

 

NOITE DE NELSON FREIRE

 

O piano angelita oscila
entre tangível e eldorado.
A mais sensível gota
de existência nos olhos
do artista. Pálpebras que
remetem avisos. Ao íntimo
desconhecido, via mãos
grávidas da entrega.
Ao maestro: cada segundo
deve repelir o estatismo de viver.

Orbitam as retinas em meio
à emoção compartilhada
com centenas de outros olhos
que esteiam os ouvidos da noite.

Noite de música vista, descortinada.
Noite de cena final, lua
da Casa de areia.
Noite de condão, diluvial.
Noite e olhos. Fixos, marejados.

 

 

 

 

A ESQUINA

Ao amigo Mario Pinheiro de Carvalho

 

A esquina era aquela;
sonho e esquisitice de risos sem futuro.
Era da cidade, mas a esquina era dela.
E  nos possuía nas noites em que tentávamos o fardo de viver
descobrindo sustos, despavoridas inquietações,
que se agarravam na essência da fúria probabilista.
A esquina era bela.
Onde sentávamos com o cigarro sem fósforos,
esperando o fogo da juventude aclamar mais um dardo atingido.
A esquina era sequela
aos tempos e vidas incontáveis, de vidas de passagens,
passeios e tristes fracassos e buscas por tentar entender o pão do dia.
Mas a esquina não era ela.
Era a que abrigava conversas sentadas,
madrugadas de um espinho camaleão,
de jogos interiores de cada um que recusava o passo,
antes o estilhaço de se ancorar no insabido.
A esquina era viela.
E por mais espaço, era própria de um pequeno mundo
de pequenos mundos, esconderijos de todas as sensações
em que éramos das cavernas, das inquisições,
do encarte positivista dos pais,
da dormência obliterada de uma fálica nação
sempre a servir-nos uma espera fria,
que, mágica, transformava,
em momentos de esquiva, a esquina em cela.
No meio-fio, rutilantes entraves insinuavam ambições
do que era o próximo segundo,
do que nasceria no amanhã,
no que fiaria nas nossas mentes,
nos livros, nas repetidas conversas, nos filmes,
na canção gratificante de um tempo rico de canções,
maiores que o próprio tempo,
que não deixaram a esquina ser mazela.
A esquina era a cancela
para todos os lados do vir a ser
ou para o alto da escada sem degrau ou rampa
para o acesso de tantos sonhos que,
só ao voar, chegaríamos em tempo de triturá-los
e experimentar o sabor de tudo que a vida,
hábil e dadaísta, proveria a todos enquanto peça
da humanidade que respira como alvorada onde está o tudo:
no meio da esquina paralela.
Nisso, íamos nascendo.
Enquanto o barro secava-se não ao sol,
mas ao cio da lua,
a esquina era a costela.

 

 

 

 

NOITE ALUCINANTE

 

Potros ao vento.

Signos e sonhos,

Portos e caudas;

suores medonhos

 

Sono de pedra.

Alma ruprestre.

Jaula da noite

sem viga mestre.

 

Luar desbotado,

palavra não lida.

Boca fora do tom

com data vencida.

 

Beijo estranho

na noite doída.

Alçapão que dá dica.

Vale sem saída.

 

Inferno, pária

morsa e aluvião.

Deus inafetivo.

Filho de Abrahão.

 

Amnésia e partida,

mictório de botequim.

O cheiro do riso,

o prazer do fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESSÊNCIAS DA NOITE 2008