No espelho,
meu rosto permanece
desde a primeira claridade do dia
como roupa amarrotada
jogada aos pés da cama.

Na rua, um fusca disputa
em decrepitude com o dono
e o banco em que senta. Diz
um bom-dia achado na memória.

O mar me chama e rejeito
a ideia de turismo e cachaça.

Sinto estar no exílio
em qualquer lugar que permaneça:
cidade, quarto ou biblioteca.

Um verso rebate a noite já morta
tentando impor uma cortina
ao que já nasceu devassado.

Mas o dia em meio a tudo isso
traz pequenos afagos ao coração:
os olhos do cãozinho abrem
caminho ao que escondo de mim
tentando suprimir momentos.

Por fim, iluminando o mundo,
minha neta que vem chegando,
anuncia-se como fogo de esperança.

Aí me vem o arrependimento
de não confiar nos bons presságios
da manhã que não abracei.

E de não ter sequer cortado a barba.

17.3.17

JORNADA ÍNTIMA

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