Dois sonhos príncipes, através de nuvens de calor,
trouxeram meu pai,o morto.
Veio adornado por duas senhoras sem rostos,
capitaneadas por Maria. A Maria não minha mãe,
mas a minha mãe.
Meu pai falou em soluços. Eu lhe pedi perdões,
pelos não feitos. Meu pai rechaçou noutros soluços.
Retalhou sua ausência. À vontade do beijo,
retalhei minha vida inteira.
Falei direta e ambiguamente. Às vezes
caia em mim. Às vezes doía em mim.
Falei-lhe do que nunca falara. Do que acentuara,
do que ficou como gaze.
Falou-me em soluços de que tudo ia bem,
diferente do quando não havia ausência em nós.
Falamos de amor. O tempo todo em amor.
E aí, a visão se dourou e acalorou o frio do encontro.
Apagou as feridas do olho, deixou à mente
submergir todos os fatos, as fotos;
convenceu o beijo a inexistir.
(mas vá controlar os poros!)
A falta dói sim, a saudade move o punhal
em direção ao afago clamando abrir
todas as feridas, todos os risos, até mesmo
os inexatos, mentirosos.
Todos os incertos monossíbalos.
As aranhas da paredes, as flores de plástico
do vaso de duas vidas perdidas em abraços.
De festas de despedidas, os outros abraços,
aqueles sem data, ficaram sem nós.
Para hoje, silenciosos mas comoventes
que não sei se doídos ou letárgicos.
Mas de mar dos homens. Dos pais,
dos filhos, dos santos, duendes, criminosos,
sábios, de tudo que prefulgura.

“Assim, tornamos pai, um ao outro
como nossos dias de certames
absolutamente panteístas. Volver ao tango,
à Grande Guerra, às fitas de cinema, a um tempo transitório.
Lembra-te pai, quando os dias te atropelaram?
E tuas fotos ficam em preto e branco?
Pois hoje elas são mais bonitas. Lembra-te, pai,
da voz do Rei da Voz? Das mãos do Oberdan?”

Agora sou eu em lágrimas, desfranzindo a cena;
torno ao restivo de saudade, nesse despertar indistinto.
E maria retorna ao descompasso do descanso,
do estar de um imenso vazio.

18.04.2001

(90º aniversário do Alfredão)

MEU PAI

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