Peço ao vaso de flores
do canto da sala
o canto da sala.

Porque quero o refúgio
das flores que se renovam,
que são acariciadas,
que são aguadas,
vistas e cheiradas.

Quero o canto da sala
e ações mecânicas acarinhadas,
melhor que o bom-dia sussurrado
ao lado da estante de livros
cheia de poeiras passadas.

Peço ao vaso que saia
de sua posse ordenada
por uma vontade,
por uma verdade,
por alguma fala
que não percebeu
por rudeza ou sono de vida
que um vaso não precisa tanto
de um canto de sala.

Por este ser mudo
portanto útil ao deslumbre,
fixa e manieta
qualquer coisa que exala,
à proporção do que se espera
não mais nem menos
que um canto que cala.

Canto poético ou canto
de quina para que o vazo
se torna apenas senzala,
que para o poeta da dor
pode ser mesmo cela
teu pouso, sua toca,
ou um canto que embala

e pode perpetuar
teu pequeno adstrato,
sua verve, sua bengala.
Esta que pode ser até
numa metáfora
o próprio canto da sala.,

onde o vaso já exaurido
como uma paisagem
se predispõe a se tornar
vaga miragem

na concessão do lugar
próprio, mas sem escala
ceder ao poeta
de vez por fim
o tão falado,
cantado, reverberado
e sobretudo cansado
o tal canto da sala.

peço ao vaso
do canto da sala
o canto da sala

quero o refúgio
ou tatuar-me ao chão
quando um dia

removido
em mim
O CANTO

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