DA ANGÚSTIA

Envolte-te neste agora.

Sei que queres com teu manto negro.

Sabes o momento que frágeis em mim

as palavras, o rompante de bardo,

as setas certeiras que hoje não fulminam.

Nem quando doces versos

nem com a aridez que temes.

Despeja teu fel, que sei imenso,

que conheço cheiros e braços

e o piso de mangue

que instalas e sonhou instalar

vida afora, rechaçado por rimas

e outras catapultas que enfrentaste.

Vem, deixo-te sorrir hoje por letargia,

restos de suspiros, avidez de resguardo.

Mas somente hoje.

Amanhã não encontrarás

esta incerteza em minh’alma.

22.8.16

TEMPERO

Pego nas mãos

algumas palavras

soltas como confetes

que versejarão

após darem liga.

Num mesmo prato,

ordenados em cores,

adquirirão o tempero

do barro que modela,

do sopro da pimenta,

da boca que canta.

Saltarão, as palavras,

por meridianos líquidos

a compor a imitação

do que se olha ao redor

do que se sente nas ruas,

do que se cala em dor.

No composto final,

juntos – forma e conteúdo,

vivos versos que animam

o ritmo que pulsa. Válvulas

entre as artérias da poesia.

11.7.19