Praça e Sol. Manhã de percorrer as floriculturas, entre sorrisos e afetos que só a intimidade externa junto da claridade que reluz pode nos doar. As pessoas quando entre flores são tão mais vivas quanto elas. Momento que lembramos que que o movimento da Natureza opera infinitamente. Adentro ao palácio de aromas divinas e compro um ramalhete imaginando o término da ação, na entrega e o olhar precioso de que quem vai receber. Saio como um assobio de melodia barroca e encontro um homem todo fora do quadro que me toca. Cabelos grisalhos, roupas desajustadas; imagino-o a me pedir algum trocado, e cheio de magia da manhã, já me preparo. Mas não, ele olha para minhas mãos, para as flores que carrego. Trocamos um olhar e com um sentimento de culpa de pré julgar, digo:

– Lindas, não? E ele, com olhar e movimentos sutis, de afago sem toque, com um luzir na face, me responde como alma amiga,

– Como elas são generosas!

Obviamente mudo o destino do presente. Trocamos lágrimas entre quatro mãos trêmulas e entrego a ele as flores e meu coração. Sigo meu caminho, comovido pela lição de Beleza na qual me embeveci. A praça e tudo nela permanecerão em mim, crescerão em mim, doce lembrança de um momento vestido com a Ode à alegria, da Nona.

Conforme a realidade das ruas trazem o retorno inexcedível, com as flores agora já aladas, penso em doar alguns livros que tenho, Platão, Aristóteles e Kant, entre eles.

Já não me servem.

11.11.19

Hoje, gostaria de registrar o término da leitura do livro UM CLITÓRIS ENCOSTADO NA ETERNIDADE, de Matheus Arcaro. Uma poesia forte, possuidora de recados, por vezes peremptórios, “o amor… não suporta os dois pontos do seu lado direito”, com reflexões bem ao sabor da nudez da alma da metalinguagem, “Pra fazer poesia / é preciso mastigar a palavra”, tudo em escaninhos interiores ou capítulos, a cantar tudo que é preciso, como diria o nosso querido Walter Franco, de partida meteórica enquanto lia este livro, “de dentro pra fora, de fora pra dentro”. Assim o fez o meu caro Arcaro, como gosto de me dirigir a ele. Evoé, poeta.

Abaixo, um poema, no qual me vi refletido:

SUSSURRO

O segredo autorrevelado
deixou-o despido.
Tentou roçar-se no espelho,
tato míope na imagem mirrada:
as mãos não alcançaram
as intimidades do instante.

Por fim, só um imperativo: leiam este livro!

10.11.19

 

O FLERTE

(Para o ser criança)

Sol, trânsito e esperanças
coletivas e saltimbancas.
No ônibus, Deus se infiltra.

Camuflado com touca azul,
seus olhos que indagam
procuram os meus. Faço-lhe
caretas. Comungamos um flerte.
Sorri e dentro de mim, nuvens
e paz. E isso me basta: é Deus!

Ninguém mais operaria o milagre
da transformação de instantes.

Mas logo se vai. Embora no colo
de um amor, visualizo-o cocheiro
da quadriga que bendiz o arqueiro.
E suas setas serão sorrisos a doar.

Tarde apocalíptica e um sorriso
banguela cicatriza o mundo todo.
É Deus! Só pode ser!

11.10.19