PRAÇA DAS BANDEIRAS

Dois amigos de rua socializam

suas pedras ao largo das vidas

que se alteiam de um sonho

de margem, do drop out incerto.

Vejo sobras das minhas escolhas

nas pulseiras de couro estendidas

na calçada onde, tudo que é sujo,

limpa-se pela ideia de ser livre.

Olhos azuis da criança presente

me denunciam como invasor

do momento que tudo me divide.

No ponto, pessoas e mochilas

esperam, de rostos em fadiga,

ônibus e amanhãs repetitivos.

25.6.19

DIA DE VIDA

p/ Konstantinos Kaváfis, em memória.


Atende tua porta ao chegarem

os desejos; inclina para o lado

do corpo que foi atingido.

Não esqueças de acolher bem

ao que pode ser tua Renascença.

Espalha ramos no teu tapete

onde teus sentidos pisam.

Sê o humano da superfície

da pele que te retrata. Não

represes tuas fantasias

por nenhum pensamento

que te doa; solta comportas

em todos seus poros, risos,

e em lembranças marcadas,

como a dança dos colmos

dos trigais que um dia viste.

Não te resguardes da canção

primeira que veio a ti pela manhã

e que te envolveu como hera

e te acompanhou  até o ocaso,

que julgavas exausto, mas que

ao se declinar, retratou no céu

um sorriso lascivo e trouxe ao olhar

da imaginação uma rosa tímida.

E quando o sono que te aguarda,

ruborescer ante teu dia completo,

entrega-te como criança: abre

seus braços e corre ao colo da

primavera. Nesta hora, teu corpo

precisará de descanso, diferente

da tua alma que, assim  que iniciares

o teu fingimento de morte, te velará.

18.6.19

FILMES TCHECOS

I

A vingança da viúva negra

Foi logo após o amor

Não foi o machado

Não foi o fuzil

Foi logo após o amor

Tudo de passou em branco e preto

Com agradável cheiro de eucalipto

II

O adolescente criou

Sentiu nos olhos a incapacidade de grande guerra

Logo amou

Fardado de leviandade

Coçou o ouvido esquerdo

E morreu

A fumaça da locomotiva

Contou esta fábula

Em dezesseis milímetros

III

Afirmou a covardia

Temendo não mais lavar seus pés

Na água quente (morna)

Ficou a vender

Botões e fitas de rendas

Sangradas e inexistentes

Deixou-se lamber pelo cão pedrês

Sonhou um homem iluminado

No mundo fascita

Sonho cadáver no seio da manhã

Das marchas e diáspora

Era (foi) um ladrão de verdades

14.12.74

A RECORRENTE

A minha solidão nasceu

de uma esquina não dobrada,

num tempo descompassado.

que não guarda certezas

lembranças  ou imagens.

Pode ser até um todo do tempo

que tive, um sem cessar carrossel

sem música.

Fiquei só por estar ao longe

do que não me faria sentir estranho.

(na verdade

nem sei se minha solidão nasceu

pode ser uma natimorta

e a esquina nunca existiu

e eu apenas um alguém

com a cabeça sob um eterno sereno)

12.7.18