POTE DE OURO

O poeta sabe onde pisa

se pisa no seu vácuo.

Um estado assim

de considerar como seu

pote de ouro,

sua cabeceira da cama.

Sabe andar nas estrelas

e não cultiva flores no chão.

O poeta finca

mistérios não seus,

mas nunca nina

suas palavras consumadas.

O poeta é todo busca

mas não sem fim

posto a poesia ser finda

em si mesma, companheira

eterna de instantes.

Com um palito de fósforo:

único, solitário e essencial.

19.11.11

LEMBRANÇAS

O primeiro encontro com emoção que tive com o futebol, foi no último jogo da Seleção Brasileira em 1958, contra a Suécia, anfitriã do torneio. Confesso que não estava entendendo muito aquele deserto das ruas, rádios ligados em alto volume, olhos lacrimejantes e outras coisas mais. Só cheguei ao prumo da seriedade daquele jogo, quando entrei na cozinha de minha casa e vi minha mãe ajoelhada no chão, pedindo a Santo Antonio de Pádua “Ajuda o Brasil, meu Santo Antonio!” (esse clamor viria a calhar nos dias de hoje). A cena que vi, trouxe-me à realidade. A coisa toda era séria mesma. Futebol mexia com todos, e comigo deveria ser assim também, mesmo com 7 anos de idade acabados de completar. Bem, acho que a fé de minha mãe em Santo Antonio valeu. E Garrincha e Pelé deram uma pequena ajuda. Brasil Campeão do Mundo! Ah! um detalhe: era dia de São Pedro.

13.6.19

REBELDIA

A minh’alma,

dona de seu nariz,

já me deixou claro:

“não podes comigo”

Mas prometeu

momentos em

que eu possa

orgulhar-me dela.


Enquanto espero,

sinto-me como

os dois Taviani(s)

tentanto domar

Gian Maria Volonté.

(Engraçado é que eu pensei neste poema

como um libelo contra a delinquência

metafísica.Acabou-se em viagem.

Entre continentes e metáforas inoportunas;

no final, tem até um sorriso meio alquímico).


21.7.13

A LUTA IMAGINADA

Uma guarânia pinça

jeitos de lutas de ontem.

Feitos deixados, morgados

em sabor de abandono.

Sono e cartapácio imóvel

como estante do tempo,

como gestante de entes,

como negligentes crivos.

Motivos infremes de apesares

mascarados de vontade,

descerrados de fazeduras.

A luta que não houve

passou, mas rastros

incidiram sobre atritos.

Detritos de covardia no dia

em que a noite escorreu.

Volto a um grito latino

deixado para trás.


Volto sem campo

nem brigas de ferozes,
como pensamento.

Ribalta para a poesia.


11.10.14

INSANA GAZA

Cada lado tem o que finge trégua.

Cada vida tem o que tange entrega.

Na parede antissanidade,

os tempos asseguram no homem

de sempre – o da escuridão,

a lança da morte do poder

e do desejo, a involutiva força

sem memória,  o leito seco do rio

da vida,  que se esgarça ao beijo

do míssil, que se revela ao desnecessário,

que se esfarinha ao poder de Deus,

que se marina como peixe

mesmo se dentro da escola

ou segurando bonecas.

Cada lado sua loucura,

cada canto sua alegria

cada cego que torna inválido

o cérebro da humanidade.


2.8.14

IL PRIMO

Ao Drummond

Antes de tudo, um sorriso

de criança. Antes de qualquer

verso  que nasça do quadro

na parede. Antes da festa

de interior que vire universal.

Antes de ganhar na loteria,

campeonato encruado,

saída do poema cá dentro,

pular a fogueira da aporia,

e o tudo. Então, antes do tudo,

o sorriso de uma criança,

nasça onde nasça.

Antes de tudo, o sorriso.

Antes do Modigliani,

da Parker 51, do posto

de capitão, gritar “toqueiro-primeiro!”

Enfim,  nada que preceda

o sorriso desdentado

e sedento de ambrosia

de uma criança. É isso,

antes de tudo,
do Gênesis, do Big Bang

e dos dinossauros,
bem antes da fé, o sorriso.
Da criança que, um dia,

já foi o mundo.


21.11.13

CAMINHANTE

Nasci. Antes de andar ou falar,

já sonhava. Não lembro sequer

algum instante de liberdade.

Preso à projeções fora de mim,

aprendi lidar com a gangorra,

determinante de minhas horas.

Para não explodir todo o resíduo

que foi em mim acumulando

senti que precisava de evadir-me.

Tomei a rota das palavras e caí

na solidão rodeada de afetos

contrários, quase todos de planos

a edificar-me como cópia reles

de gente que o tempo apagou.

Hoje, nada sei sobre lucidez.

Apenas que sou o de sempre

atrás das portas e de poemas.

Enquanto escrevo, penso ser rio;

lento, mas ansioso, um contínuo

caminhante em direção ao mar.

Como não vou entender a morte,

não sentirei o fim; um sono

sem o despertar matutino, só.

10.6.19