Poetas carinhosos me indagam

o quê me leva a insistir em usar

pontuação nos poemas que fabrico,

que isso é coisa do passado.

Respondo que a razão é essa mesma,

assim o faço por ser coisa do passado:

um acordo tácito, desde há muito,

com  Antonio Vieira. E, mais ainda,


– Deus me livre de praga de padre!

6.6.19

FUGA

E se o verso fugir de casa?

Como um encontro ao portão

aberto depois da prisão

dentro da estrofe sem graça,

cheias de métricas e rimas.

Sair ao respiro da oralidade

da boca da moça que quer dize-lo

na rádio no horário da noite,

antes das canções

de sucesso para sempre.

Correr pelos becos da madrugada

e encontrar seus pares de pés

e ombros forjados nas ilusões

de garrafas e dos meios-fios

buscados nas verdades

que jamais florescem.

Sorrir com o sorriso

que a aurora deve trazer

senão no ventre,

posto ser o próprio ventre,

mas num colo com cheiro de café

e gosto de pão com manteiga

repleto de luminosidade

a devorar a escuridão

que já terá ficado presa na história

que se contará de mais

de um dos milhares de ontens.

Brindar com o sol da manhã

e rir dos poetas concretos

que o disseram inexistente

de forma séria, sisuda,

cheios de dogmas de fé

e ele nunca que deixou

de pular carniça.

Assustar os homens

presos a carros e sobras de lixo,

que correm com as suas vida

em seus encalços e ansiedades,

buscando tudo menos a poesia

que ele carrega com a alegria

de quem ampara um cãozinho

de olhar de amor,

desses que não estão nestas ruas

nem nas mochilas carregadas

de tudo que é cinza.

Sabedor de sua efêmera duração,

mas de seu enorme servir,

não tentará mudar o mundo.

Apenas tentará fazer respirar

quem estiver de cabeça e olhos

ao chão como a humanidade

acostumou-se no esperado

e cantado terceiro milênio.

Depois dará uma passada em Ítaca,

antes de me chegar novamente.

5.6.19

ELA

Minha alma é conviva da vida,

desgarrada de quaisquer mortes.

Precisa do ar de que me sirvo,

da dor que me ativa, do som

das calçadas. A minha alma

só mostra do futuro meu medo.

Tudo nela não jaz. Tudo  nela

segue a natureza que me habita.

A minha alma prepara versos

em estado de argila e despeja

em minhas mãos que os tomam.

Depois, vestida de alívio, segue

seu destino de estar atenta

aos meus passos que tropeçarão

nas próximas esquinas e febres.

A minha alma ensina ao meu eu

que a imite, que embole a vida

e a arte num mesmo balaio,

desde que se mantenham longe

palavras que não as diferencie,

as inexatas que dizem nada.

E quando descanso meu corpo,

minha alma sonha com caminhos

e se prepara para escalar etapas

das dúvidas que nasceram antes

da carga que lhe impôs minha vida.

Quando me sente triste, me agrada

e se desvela eterna, companheira

para todo o obscuro do amanhã.

Põe as mãos sobre minha cabeça

e diz para em nada se desacreditar,

que a vida, assim como a poesia,

em suas essências, são mistérios

que elevam o Espírito que nos tem.

A minha alma é o meu travesseiro.

1.6.19

TEMPO DE DESVÃO

Mornado o renque de estames

que conduziu como vagões

minha vida desde o instante

que sem pré-consulta vim

aviltar as horas de fados

recíprocos e dissonantes,

tenho a sensação de concrescer

em linha rumo ao termo;

ao que denoda a passividade

que esperei como refúgio

nesta fase outonal cujos medos

pulverizam-se em ex-lutas

ao se ter a mescla do não retorno,

da fila que impele,

da entrega maciça de perimir,

da constatação do ciclo.

É quando a caverna da alma

abre o recôndito  à mente

e se busca o peremptório

lugar no mundo outro tanto

prometido, que por tempos

escarnecidos, surge, chave

de um corte inesperado,

que se espera, remando em águas

furtivas, em posses e desejos

que a cada passo nestes dias,

manifestam-se inócuos e frios,

agora com o discernimento

a tolher um passado sonhado,

aunado em tentativas

da inexistência do amanhã.

É quando temos o tempo

fora das nossas amarras,

flutuando em torno, como

sombras, desvaneando

amanheceres longe

do que denominamos chão.


7.12.05

Olhos d’água sustentam a noite

na escadaria; duplos lalarilarás

agudos no hino boêmio. Embora

tudo e mais, solidões campeiam

cada mão. Noite esquecível

em que sobrarão latas vazias

a sustentar o cigarro da manhã.

30.5.19

SOLIDÃO

Leio o Ítaca de Kavafis.

Choro e rio na certeza

de que somos corpos

e sentidos para a vida.

De que há caminhos

absolutos de regalos

e encantadas forças

que a Beleza nos traz.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Ouço o amor de Isolda

a Tristão no prelúdio

de semeação de Wagner.

Choro e rio na certeza

que fosse a minha vida

somente este segundo

já seriam estas lágrimas

o que pensamos de eterno.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Os passos de Chaplin

e Paulette Godard

no final de Modern Times

me assolam. Choro e rio

na sempre estrada

que leva às escolhas

das vias que trilhamos,

ao belo a que nos leva.

Mas me faltam outros corações ao redor.

Me sobra o medo

que a solitude

possa numa manhã

de primaveras e aves

tornar-se fagulhas

estéticas com o poder

de a qualquer momento

em comoção, explodir-me.

Por isso nego-me a rir ou chorar com quem se veda.

20.3.13