FUGA

Tento em outono

fugir-me em versos

como a procurar

a estrada de terra,

cercada de culturas

sob o pó das árvores.

Daí escapar do mundo

rodeado de intolerância

para o cio da arte.

Desligar de espíritos

amalgamados em folhetins

televisivos, nefastos,

hábeis em transformar

estruturas congênitas,

apagando da memória

a crença de que somos

rios e sonhos.

Necessitamos de nossas matas ciliares.

SOBRAS

Ele sonha

como eu poderia ser.

Ela sonha comigo

cheio de gravatas profundas.

Eles sonham comigo

com olhos como um falso espelho.

Eu sonho mais

(o tempo todo).

Por isso moro no quarto dos fundos

onde mastigo sobras

do que em mim é real

(as derradeiras).

Nas paredes

amarelas escreveram:

(algum prisioneiro

de barbas longas)

Há de prevalecer aos séculos

todas as pragas mosaicas.

2.4.16

DO TERMINAL DE ÔNIBUS

…desolo-me ante a sujeira

que assisto como um palco.

Tudo é decrepitude e ruir

neste flanar. Homens destroem

o que respiram . Enfeiam

o que seria suas molduras.

Distorcem o que sempre

só serviu a todos

como um tapete de bem-quereres.

Torturam as tradições do asseio,

mortas em fotos antigas

da cidade. Jogam o lixo ao seu redor

como se o engolissem. E andam

em contrações corporais

fugindo de chuvas de raios.

Miram a fealdade do que fazem

como meças  ao espelho.

Mas o que veem não os abatem,

antes os conformam. É quando

tudo se mostra tardio:

suas escolhas já os devoraram.

7.5.19

O APÓS

Beira do dia:

há um abismo

chamado após.

Muda de lugar

a cada instante,

a cada pistache,

a cada sangria.

Um bálsamo

de evidências de história

de números e sufoco

compõe um borderô

de vida.

Beira do dia:

há um abismo

e um chamado

sempre ávidos,

onde soçobram

cansaços e delírios.

Por vezes,

alguma semente.

19.10.16