Praça XV,

domingo e manhã.

A alma procura ode

no solar retrato

que irá jactar-se.


Mas um campo

de abandonos

se despudora

no antes de tudo

a que deveria ser o jorro.

Olhos de elegia

absorvem o ontem

que se fincou.


Restos de humanidade

alcatifam pisares.

28.4.19

Já te disse: te dou minha palavra.

Não a do acordo, da afirmação

de minha identidade. Mas

minha liberta da razão,

terna como um abraço, pena

pela fragilidade, apurada em rios

internos a desaguar no vento.

A palavra que não tem outra

face senão a do vício lírico,

que se adultera em escudos

aos frontispícios dos erros

que rodeiam todos no mundo,

principalmente os que insistem

em respirar os becos de viver

e a escuridão dos homens.

7.4.19

Extrair a fantasia do solo

pressuposto fértil mas dorido

como a erva feita bálsamo

a desencravar o que dentro

mortifica e embolora se tardia

como um balaio de tempos

acumulados em irresoluções.

Recomeços de novamente

irão prevalecer às palavras.

E serão necessárias outras,

espelhadas sempre em ciclos.

Como um moto-perpétuo

mantendo na mesma bandeja

a dor da vida e a chama poética.

Escrevemos buscando finais

mas que são areia de deserto:

durante a claridade do dia

queimam a pele e os desejos;

nas noites escuras congelam

todos os instintos revoando

grãos sobre o que nos alteia

em dunas aquilo que somos.

5.4.19


horas abarcadas, manhã

embaixo do ar, nuvens

de secretas imagens, olhos

invisíveis  e recuos, pálida

vertigem, fugas cínicas

de imagens do passado;

(o verso em meio nasce,

flutua e se escora em asas

mas logo ruma ao seu limbo

por caminhos de elefantes)

há de por termo ao sentido,

fincar braços sem amarras

repicar o velho sino do sono

– quem sabe um fundo de ser

para um infalível mergulho?

6.10.15


Isolar o sol e o sorriso para mais tarde

(na tarde que vazia virá)

Não haveria sentinela para o tempo.

Mesmo assim (por mania),

almejamos a tudo

manhã e notas musicais

notícias

flores

versos,

que depois serão decaídos no papel,

no arquivo com vírus,

na cabeça ácida de olvidamento.

Tudo na vida é muito igual,

cópias.


7.10.15

Somos censores naturais.

Cabeças com seis décadas

de lembranças,

pinçamos as não amargas,

as palatáveis: cerejas

da memória.

As sobras sofrem cortes

bruscos com a tesoura

do tempo a piratear dentro de nós.

Os fatos nos convivem

como cartas náufragas ao léu

no emaranhado de dias vividos.

Somos os naturais censores

de nós mesmos – torturados.

8.10.15