A ONDA

“só as ondas se sucediam, em cada onda o mar se despindo,

sem nunca chegar à nudez.”

MIA COUTO

Sou invadido por um tempo perdido.

Onda mansa que atinge o fim da praia.

Demora a voltar, querendo ficar.

Traz consigo a incerteza da notícia dentro de uma garrafa.

Molha-me. Esfria pretensas saídas.

Nada grita, nada mostra, mas corrói.

E a dor que porta, distribui,

de sorriso nos lábios.


Quando a temo infinita, esvai-se.

E com o rosto ao sol, respiro novamente

na confluência do marasmo de hoje

e um acorde beatle imorredouro.

A POESIA

1.

A poesia traz água para quem não tem sede.

A poesia alivia a dor que não se sente.

A poesia verte água que se singra

e o bálsamo que suscita.


A poesia assoma

o que está sob pedras do aflitivo dos dias.

Atrás dos portais do efêmero, do raso.


O sorriso alardeado na manhã nascente na tristeza,

lágrimas escoadas em meio à festejos de amor,

são outras sedes, outras dores, alteadas

no momento em que a poesia cava a nossa alma.


2.

A poesia recolhe-se à margem do aquém

mundano. Sai em busca do não-comum além

cigano. Sem garras, (já se disse na sombra)

nem masmorras, súbita aparição fora do usual,

antinatural, provém o homem de outros braços,

outras rosas, novas pernas, laços, forjas, outro

mundo que não vê direto, claro, enquanto

suporta a tralha do que sua vida escorre.

Com versos revogados no peso dos dias,

a poesia, díspar, manancial e arte,

não trabalha e nem morre.


3.

Cordata, a palavra aloja-se

tranquila, mas inócua.

Assenta ao branco como um leito.

Quieta, sem presságios. Corto-a

ao meio, desalojo-a tangente.

Ela renasce em calor,

e prova da missão lírica sem suspeição.

E mesmo menor, ínfima de espessidão,

prova do destino de gestar o poder

de afago que o papel domado

e silencioso jamais sonhara.


4.

E o verso nasce, sopra.

E contém aquilo que não se espera,

não deixa que se vergue.

Não permite a afronta

e se cristaliza como águas de chuva

que caem, escorrem e são levadas,

amor fati, sequentes,

sábias em seu caminhar.


Não importa muito a fugacidade.

O momento é vida, motor e arrimo.

Brota, serve e adormece feliz.


Dentro de cálices de estrelas,

compartilha o espaço

com a grandeza e a loucura,

junto à toda poesia do mundo.


5.

Versos, têm dois:

o da hora marcada,

e o outro, fértil,

que nos desencontra.


Do verso que se espera

é só um fingir de belo.

Verso vaticinado,

no patíbulo, amarelo.


Mas os pais do nosso delírio,

o inesperado, este

que é turba, saltimbanco,

em nossa alma joga dados.


Verso que não se rende

ao adivinhar da mente.

Verso que sempre assalta,

fustiga, que se sente.


Improvável, inaudito,

que dói mas alivia.

Se não puder outro nome,

que lhe chame poesia.



2010

SARA


Noite fria.

Nenhuma rosebud a procurar, nem mesmo um sonho a percorrer, apenas e unicamente um espelho a se evitar.

Noite fria, pasmada.  Fixa em retalhos confluentes, retalhos de lembranças. Uma voz televisiva jacta cinzas de um vulcão chileno sobre as asas dos jatos que desejo. Mas não sei se pelo risco ou a vontade inerte de qualquer viagem. Atiço a vontade de nada realizar. Risco e movimento tornam-se metáfora de tudo que em mim é inconcluso.

Noite fria e olhos na janela. Na rua, corre uma figura bonita. Mulher, de roupas pesadas e botas  longas. Sorrio ante a idéia deliberada de ser uma proteção à mordida de cobra. Não há cobras senão no vácuo de minha percepção. Ou no meu eterno medo por mania. Tudo sempre há um perigo adiante, uma aventura disposta a cronometrar meus pensamentos fugidios. Um embate fugaz traz-me de volta aos passos da mulher na noite com frio. Alegro-me por ter um porto onde começar a imaginar. A mulher torna-se companheira e dentro de mim  ouso, como sempre, contar sua história.

Sara é o seu nome. Escolho-o ao acaso de minha cabeça. Não perco tempo em saber a razão dela se chamar Sara e vou ao encontro de sua vida.

Sara é uma mulher em busca de seu destino:  a realização profissional. Por isso estuda muito. Põe toda sua insegurança na curiosidade e desejo de aprender, querendo desde sempre pelejar com o amanhã. Lembro imediatamente a luta de cavaleiros com suas lanças longas e decididas a procurar o peito do adversário. O peito que sempre para Sara foi o futuro. Logo essa imagem se esvai porque procuro pensar em seu rosto, em seus cabelos negros. Penso em Poe e me irrito com isso. Quando temos que narrar a história de uma pessoa próxima ao nosso ato ficcional, esses arquivos assolam a mente, embotam os nossos olhos às coisas simples e corriqueiras da vida de Sara. Quase que desisto do plano.  Não quero sofrer como o escritor que gerou a Macabéia. Mas o frio da noite me joga de roldão ao coração de Sara. E continuo.

Sara sofre a falta de tempo para se apaixonar. Um ou dois homens que a cercam na faculdade, dividem suas possibilidades, que morrem todos dos dias em causa de sua determinada tarefa de se estabilizar dentro do mundo, dentro de sua vida. Estuda Economia, quer derivar para o campo da auditoria. Sonha com esse poder de ser vista com a seriedade que a profissão impõe, e a vassalagem que causa. Sempre viu nos auditores  certo apuro na imagem, uma soberania inexplicável, um ser de última palavra, a que nunca se contesta. Essa decisão não deixa que seu íntimo a provoque pela não dedicação ao amor. Como se fizesse uma auditoria em si mesmo, diariamente. Como  se visse com o semblante sério, fechado à quaisquer manifestações contrárias. Como se enxergasse vulnerável. Ou lúdica.

Escrito isso, penso em estar transferindo para Sara meu desejo de ser poeta. Tenho que mudar o rumo da sua história ou acabarei como em outras vezes, deixando o que chamo tudo pelo meio do caminho.  Sara não pode arcar com minha dor de sensibilidade. Sara tem que ser apenas uma história contada. Meio e fim. Não importa o começo. Afirmo isso e desando a ver Sara em sua intimidade.

Termina seu banho e está nua. A noite linda e quente rompe em seus seios. Um clarão que nasce da sua janela derrama pequena claridade em sua barriga. Inevitavelmente está diante do espelho. Pequena soberba a faz se admirar gostosa. Adora o termo. Ri intimamente dele. Já ouviu várias vezes. Já foi chamada assim nos relances de seus passos rápidos e pelos amigos da faculdade, quando permite uma noite de chopp e MPB. De dentro de si, ilações trazem-lhe pensamento de sexo. Olhando seu umbigo, recorda um beijo que lhe foi dado ali. Mas, rapidamente, procura dissolver a lembrança e os desejos. Está decidida. Esta noite não quer masturbar-se. Foge de maneira descortês dos anseios de seu corpo. Renega a ele o gozo por se achar dona  do poder sobre ele. Está se formando dentro de sua mente uma competência de verdadeira auditora.

Acabo o parágrafo e não gosto do que escrevi. Descrever um corpo nu dentro de uma noite de calor com esse frio me parece uma coisa teatral. Mas me satisfaço com a ausência de carícias que Sara poderia ter-se premiado. Não sei o porquê. Mas gosto. Acho que começo a me vingar da Sara sem ao menos ter-lhe dado uma vida. E fico triste com a noção de que ela é inocente. Fui eu quem a escolheu. Mas ela passou sob meus olhos, na janela. Agora é minha e a faço como quiser. Mas neste momento, darei um final digno a ela. E só.

Sara mora sozinha. Embora sua família, pais e dois irmãos morem na mesma cidade. Quando conseguiu o estágio na empresa que está, somou sua mesada com o que ganha e a receita permitiu morar no centro, num pequeno apartamento de seu tio, e paga somente o condomínio do prédio. Seu tio é o seu padrinho. Sara é considerada por todos a filha correta. A estudante prestimosa, a filha perfeita. Seus pais têm adoração por ela. Seu padrinho orgulha a todos a afilhada. Sara sente o peso de ser assim. Uma dose de rebeldia seria mais conveniente. Não teria que se abster tanto de pensar em todos quando em suas cutiladas anárquicas, desde um baseado até um acordar no apartamento de alguém que lhe deu uma noite de prazer.

Deste parágrafo gosto mais do personagem. E acho que não a descrevi suficientemente bem. Deve ser este frio. Lembro-me que tenho um Romeo Y Julieta que ganhei de um amigo, que foi à Cuba e veio falando mal de tudo que viu, só para me deixar puto. Na tentativa de amenizar, deu-me o presente. Mesmo assim, acho-o uma anta. Mas vou fumar e me deliciar. Quem sabe melhoro e escrevo a Sara dignamente. Resolvo entrar na história.

– Moça, todas as mesas estão ocupadas. Você se importaria que eu me sentasse, dividiria a mesa comigo?

– Claro, por favor. Fique à vontade.

– Sempre cheio aqui, né?

– Comida boa e barata. Enche mesmo. Sabe que sempre acontece isso? Sempre a gente divide a mesa. Inda mais que estou sozinha e tem quatro cadeiras.

– Sim, e eu sempre chego no pior horário.

– Mas aqui é assim o tempo todo. Adoro vir aqui. O senhor também?

– Sim, sou velho freguês. Ou um freguês velho.

– Nada, o senhor não é velho. É professor?

– Não, sou poeta.

– Que legal. Mas desculpe minha ignorância, mas nunca pensei que alguém pudesse viver de poesia. Não ligue. É que para mim poesia é uma coisa tão distante. E ser poeta então…

– Mas existimos. Não vivemos disso. Sou aposentado. Mas minha ocupação atual é escrever versos, colocar num livro que vira fumaça…

– Vira fumaça?

– Desculpe a metáfora. É que ninguém lê.

– Acho que está exagerando um pouco. Para tudo há um público. Poesia é uma coisa divina.

– Gosta de algum poeta em especial?

– Gosto sim, de Fernando Pessoa. Mas não tenho lido. Sabe, sou estudante de Economia e meu tempo é escasso.

– Entendo. Mas a poesia ajuda as pessoas a se tornarem mais… como diria.

– Mais singelas!

– também, mas estava pensando na reflexão que os poetas nos dão sobre a vida…

– Ah! Legal. Olha, foi um prazer conhecer o senhor. Ainda mais um poeta, mas já estava no fim quando chegou e preciso ir. Qualquer dia a gente se encontra aqui e o senhor me mostra uns poemas, tá? Vou adorar. Tchau

Noite fria.

Ninguém passa mais na calçada. Com o charuto terminado e a tela do computador me pedindo descanso, deixo Sara à sua inexistência. Ou à existência de um poema que em ela se transformou:

Escrevo um verso taciturno

Dentro do erro desta hora.

Indesejo de ser noturno,

Ele não voa,

Não tem olhos para lua.

Somente ímpetos de se ir embora.

Serão os vetos ao meu coração

Ou me roubaram a aurora?

10.6.2011