CINZA VIVA

O nada nunca me convence.

O nada

a mim sempre vence.


O nada é uma porta

fechada.

Ponto vil.

Retina esbranquiçada.


Entre o nada e o tudo

uma ladeira

onde se caminha mudo:

passos marciais

piras acesas

cheiros ancestrais.


O nada, laje fria,

pura esquiva

não morre à esmo,

é cinza viva.


O nada não é só e tão nada assim.

É amigo íntimo

da náusea,

outro nada, enfim.


13.11.2010


ALHEIO

Sinto que minha história escapou-me entre os dedos.
Como se morasse no quarto ao lado.
Uma nau, embora sem estar à deriva,
chegou a ancoradouros estranhos,
seguindo rotas absurdas.
Uma espécie de inexistência vivida
entre um mundo perfeitamente justificado
e não aceito
a um mundo desconhecido,
que se perpetuou inerte
como uma visão,
embora presente o tempo todo.
Assisti da janela a vida passar pela rua.
E não atendi aos milhares de aceno.
Não segui o comboio por medo das esquinas.
Preferi ficar varrendo o chão,
sem sentir onde seria o chão,
sem amalgar para mim um chão.
Hoje, percebo quase toda minha vida em parêntesis,
com tempos confinados entre eles.
Os que estão fora são pequenas luzes de presépio,
pequenos poemas que me doam sorrisos,
momentos acariciados.
Tudo isto faz com que minha existência
seja de pouco anos, forjadas em palavras.
O que se mostra na face são frascos fechados,
expostos em móveis frágeis, esmoídos
por dias passados em continentes distantes,
ou pequenas ilhas sobre o oceano
de águas agitadas e turvas.
O que se mostra não sei mais o que é.
Dentro de mim, mas desconhecido.
O ser que é alheio a si próprio.
Por vezes sono, em outras fel.


15.01.2004