MANHÃ DE SOL

Saio para a caminhada

e volto com um poema.

Um poema que tinge a pressa.

Que tangencia as expectativas

atléticas. Um poema que ignora

a realidade, sequer nota

os rebentos dos poros.

Um poema além do corpo.

E do mundo.

Saio para a caminhada

e o canto revigora-se.

Enquanto as pernas apenas doem.

28.3.17


CRÔNICA DO DIA

Ouvi muitos xingamentos na minha vida. Meus ouvidos escoraram muitos. É bom que se diga que a maioria não foram dirigidos a mim, e sim os ouvi em alguns conflitos presenciados e, na maioria deles, ditos ao léu como forma de desabafo ante situações de futebol e política, na sua maioria.

O mais corriqueiro, claro, é o de atacar a honra da mãe de outrem, com variadas estruturas, como o tradicional e mero filho da puta, ou o passar o filho para o feminino e xingar tanto homem com mulher. Também já ouvi ser usado como filho das ou filho de uma. E até um eufemismo simpático “quem não fizer tal coisa, a mãe não é santa.” Varia ao gosto das bocas, que adoram poder xingar.

Jesus, doce criatura, quando os fariseus passavam da medida (e sempre o faziam), sonorizava um “raça de víboras!”.

Mas eu gostaria de mencionar uns mais inusitados: um amigo de infância que ao sinal de qualquer raiva, lascava um “vai bundar com o Frederico!” Ora, o verbo bundar, um neologismo de primeiríssima classe na criação dos mesmos, pode ser fácil o entendimento. Mas e  o tal Frederico? Algum sentido fálico para um simpático nome. (Tive um grande amigo assim chamado, era juiz de futebol; partiu antes do apito final, saudade.) Durante anos fiquei matutando (coisa de avô) o Frederico inserido neste sem dúvida palavrão, dada a forma vociferada como era exprimido.  Acabei por abandonar a dúvida  e a pesquisa. O tempo passou, não mais ouvi ninguém o utilizar. Sumiu da história.

Agora, tinha um tal de Joecy, que fugiu de sua casa para acompanhar um circo, que além de bom de briga, era um ás do xingamento. O que mais usava era menos raivoso que tantos outros que ouvi, porém gritado de forma sempre enigmática. Em qualquer contenda, lá vinha o Joecy, de alcunha Mister, com o seu formidável “seu cara de onguborutu, feição de bode mocho!” Segundo apurei tinha aprendido com seu pai, um nordestino com muito orgulho do nome que carregava, o seu Virgulino.

25.3.19

CRÔNICA DO DIA

A chuva daquela tarde caíra mensal. Foi que entendi do que a moça do tempo disse na TV. Uma grande jarra despejando água num copo. Não me furtei à imagem. O pensamento se evade com a precisão de um raio sobre um mapa mundi colocado na mesa de nossos olhos fechados. O mestre Lupicínio matou de vez quaisquer tentativas de elaborar versos neste sentido com o genial “o pensamento parece uma coisa à-toa mas como é que a gente voa…” E nessa profusão que a mente provoca, olhando as águas de março (o Tom, nem diga) ancoro em recordações da primeira enchente que pude presenciar de perto. Assisti todas etapas, do temporal ao caos que as águas provocaram no jardim da cidade, situado na praça central, com a queda de árvores, destruição dos bancos de madeiras,e a fonte luminosa, destruída.

Ainda carrego os rostos dos engraxates, desolados por perderem seu espaço de trabalho. Bem no meio da praça, atravessando a rua, um cinema com todos seus cartazes estragados, e a Fulaninha, loja de bilhetes de loteria com seus vidros quebrados. O vento fora de uma força jamais presenciada. Um velho cão de todos me olhava triste. Ele sentira a natureza mais que todos nós, por ser todo percepção, sem que tivesse necessidade de procurar razão para tudo aquilo. Uma noite digna de São Bartolomeu (exagero do cronista). E a manhã já se remoçara límpida, com seus raios de Sol procurando formar um arco-íris. O rio já se acalmara, mas ainda mantinha perigosa velocidade em seu correr. O mundo ia se ajustando, precisando de uma limpeza. Foi o que pensei, depois que entre muitas falas ouvidas, a do Ziqui sobrepôs: – “A água é castiguenta, ela quando cai, é pra limpar as coisas ruins que nóis fazemos. E se cai forte e ventando assim, é porque a coisa tava feia, acumulada nos pecados! É muito chifrudo nessa cidade! Brinca com Deus, brinca!” E ninguém apontou ser uma frase machista. Apenas riram. Nas chuvas daquele tempo era assim mesmo.

24.3.19

CRÔNICA DO DIA DE SÃO JOSÉ

Fiquei muito feliz com a escolha do escritor Inácio Loyola Brandão para a Academia de Letras. Um grande talento da literatura e do jornalismo brasileiro. Além de ter sido o arauto da coxinha de Bueno de Andrada e transformado a mesma em celebridade de farinha, batata e frango, com um preço que condiz com a fama adquirida. Mas não é por isso que pinço da minha memória o Inácio, e sim o seu hábito de sempre carregar uma pequena caderneta, onde anota fatos do cotidiano para, com sua brilhante criatividade, transformar em literatura, e da boa. Daí eu imaginar esse modus operandi nas viagens de ônibus urbanos atuais, onde as conversas aos celulares pululam (em voz alta), e de quantas cadernetas seriam necessárias para o devido recolhimento dos eventuais casos com potencial a serem consagrados em crônicas, contos e outros que tais.

Basta uma viagem um pouco mais longa e pronto: negociações, mexericos à Candinha, reclamações das patroas, as moças que trabalham nas creches, o calor insuportável que aumenta a cada ano, os buracos de Ribeirão, críticas ao prefeito (outro dia vi uma jovem chamando o alcaide de Faz-me-rir, pensei na cantora  Edith Veiga; viram como se viaja na imaginação?), churrascos acontecidos “a cerveja estava quente” , árbitros de futebol e seus intermináveis erros,  e muitos outros assuntos que serviriam tranquilamente de fonte de inspiração para quem milita com as palavras. Mas sem dúvida, o maior personagem destes telefonemas é o marido. Inclui-se aqui o namorado, o amante ou o crush (na minha época apenas um refrigerante com gosto de laranja), ou seja o parceiro. O carrasco que ali se transforma em enforcado por vozes estridentes.  E dá-lhe histórias! Tem os casados e quem o traz é a amante, mas também pode ser a esposa reclamando do “bebum carnicento” que tem em casa (juro que ouvi isso), o namorado que gosta de maconha e não cumpre com suas obrigações (?). E dentro dessa classe, o assunto de ouro no pódio é o referido não gostar de trabalhar. Penso que percentual teria no triste quadro de desemprego no Brasil. (Pensamento bobo, mas não se segura a mente).

No dia de ontem, ouvi uma conversa completamente inusitada. A começar de  quem falava ao pequeno celular: um grisalho, com uns 70 e tantos, reclamando de sua esposa.  Conversando com o seu compadre. A senhorinha era uma alegre pessoa, adorada pelos netos, mas era viciada. Uma pobre viciada (palavras dele), perdida mesmo. Em bingos!

Ah meu caro novo imortal, se puder, dê uma viajada num ônibus urbano (ainda tem aqueles elétricos em Araraquara?). Recomendo.

19.3.19

CRÔNICA DO DIA

Meço a distância entre minha casa e a padaria, percurso que faço todos os dias caminhando (salvo se manhã de chuva forte; as fracas combato com um colorido guarda-chuva), sem utilizar nenhum padrão de distância que conhecemos e nem o entediante contar passos, coisa de velho que não adquiri. A minha trena são os bons-dias. Hoje, por exemplo, foram onze. É claro que pensei, no retorno, em time de futebol. Mas foram onze saudações dignas de um congresso da ONU. Várias idades, cor, religião e se quisermos acrescer novos tipos, vamos incluir as feições faciais, das quais tentamos subtrair o humor e quiçá pensamentos. E chego à uma conclusão, lógica e portanto simplória, que esses cumprimentos, antes de tudo, são uma festa matinal. E com direito a ser altamente terapêutica, pois ao exalarmos um bom-dia sorridente, efetuamos a verdadeira inteiração com conhecidos e estranhos, e como somos egocêntricos desde os primeiros segundos do dia, já demonstramos o quanto educados e por que não, altivos e superiores. Assim mostramos uma de nossas máscaras diárias sem o menor perigo de rejeição. Senhores, senhoras, jovens de mochila, comerciários esperando o busão (assumo o apelido para dar mais cor a esta minha pequena crônica), enfim um painel humano considerável em suas diferenças de vida. (Buscar pãozinho fresco para a esposa virou tratado de sociologia). Enfim, o bom-dia é melhor que qualquer coisa nas manhãs, melhor que caminhada, Tai Chi Chuan ou academia ao ar livre. É uma maravilha. Apenas às vezes, um pequeno acidente pode acontecer e o panorama mudar climaticamente. É quando encaramos muito um sorriso e esquecemos de cuidar do chão. Há gente que fez o mesmo trajeto antes , acompanhado de seu cãozinho, que desdenhou da calçada e deixou sua pequena lembrança para que eu a pisasse. Nesta hora, de chuva ou um límpido sol, raios caem sobre minha cabeça. E o cumprimento passa a ser daí em diante de uma forma levemente interrogativa: bom dia?

18.3.19

NÓS E EU

se me quiseres junto aviso

que não venho só – não sou só

tenho nos bolsos meus sonhos

envoltos em mim assim como

a casca da cortiça ou malha

colante ao corpo ensopado

de tentativas vãs – todas elas

símbolos das horas roubadas

durante os tempos em que deixo

de viver e invento vários jogos

sobre mim mesmo – todos ou

quase a maioria de retificação

se me quiseres por perto previno

que a metade do que vivo passo

sonhando com a outra metade

que aparenta o que deveria ser

entre as duas uma linha cega

divide o que chamo de jornada

não se confrontam nem querem

apenas delimitam o que sinto

e o que sinto é que uma se cala

e promove o que é da vida em si

enquanto a outra de sina etérea

canta e se resguarda em versos

a do chão é uma espécie de nós

e não se reluta em sorrir ao sol

mas a das sombras das palavras

só se mostra como um eu de asas

12.3.19 – 1h50 da manhã

é tarde no corpo que apura o sexo

que em desdém – inexiste

a força da vida ficou lá fora

no sapateado das horas que se apressam

a cada etapa

uma fumaça que traga cada minuto

quando na imagem de um fim:

uma rua larga

infinita

de duração de segundos

seguimos

como um palito de fósforos – viramos nada

( o soldado do Grossmann disse

que só tem medo de morrer

quem não tem a alma simples)

5.3.19