17

ensaiei a sinfonia do sol
mas emudeceste
singrei todos os mares gregos
mas estancaste
busquei a jazida do azul
mas escureceste
atravessei a linha da vida
mas não me amaste
teci a aurora das cores
mas desfizeste
plantei jardins na noite
mas não vieste

1

Parto em tua direção
mesmo sabendo que estás distante.
Mesmo sabendo que entre nós há um vale
de sonho inebriante.

Parto em tua direção
como quem busca um diamante.
Mesmo sabendo que jamais
ficarei perto de teu sorriso iluminante.

Parto em tua direção
com desejo de renascer,
nem que seja apenas por um instante.

Parto em tua direção
e navego em ti pela luz da lua.
Nesta viagem delirante.

DIA DE CHUVA

Tomei minha velha mala
e coloquei objetos.

Os que mais gosto lá foram: o pente
(de osso de javali),
um brigue em miniatura,
um vaso com limpa-viola,
um poema da Francisca Júlia,
o mar de chapéu na foto da Tina Modotti,
uma folha de papel-de-seda
com uma lista de vacilos,
que remontam aos tempos do Old Parr.
Um sem número dessas coisas.

Antes de fechar a tampa,
não evitei que minha alma se enveredasse junto.

São ações nesses dias que,
quando acordamos,
sentimos que o destino,
inapelável, insatisfaz.

30.10.2003

4

O que é longe para o pensamento?
Que é a ausência para o coração?
De que forma sofrer se temos a lembrança?
Os mosaicos de momentos já nos perpetuaram
juntos, colados como um beijo de amor.
Se vivemos pelo menos um só instante,
já temos uma vida a celebrar.
Se falta um contato de pele,
sobra, dentro de nós, a ternura do sorriso,
este sorriso de uma saudade ao redor,
dançante e efusiva; saudade de fechar os olhos
e poder ver; este sorriso de recordar…

A distância apenas separa o corpo,
nunca a alma.

20

vejo o amor na manhã
à sombra do galho

ela, colada ao corpo
que já lhe deu tanta vida,
busca agasalho

ele, flor na mão,
doando seu ombro
para que ela se recoste,
ostenta o grisalho

ao ver o casal antigo
nasce-me a dúvida:

o que brota em meu rosto
é lágrima ou uma gota de orvalho?